De todas as variáveis sobre os riscos políticos do governo Jair Bolsonaro, nenhuma é maior do que o próprio presidente. É fácil tentar demarcar o 1º ano de Bolsonaro pelo voluntarismo e a imprevisibilidade, um misto dos ex-presidentes Jânio Quadros com João Figueiredo, mas o personagem é muito mais complexo. Bolsonaro personifica um movimento conservador autêntico na sociedade com raízes no movimento anticorrupção dos tenentistas de 1922 e que abarca hoje uma ampla aliança que vai dos eleitores evangélicos à elite financeira, do agrobusiness aos quartéis do Exércitos e das PMs. Bolsonaro é uma obra em andamento, mas, para entendê-lo, vale ler os seguintes livros:
Em “Castello, a Marcha para a Ditadura” (Companhia de Letras), o jornalista Lira Neto reconta a trajetória do general Humberto Castello Branco. O livro é rico para entender como um governante sem base se torna refém de seu apoio mais radical.
“Os Engenheiros do Caos” (Vestígio), o cientista político italiano Giulano Da Empoli relata como marqueteiros com uma aguda visão da tecnologia se uniram a políticos populistas para virar de cabeça para baixo o conceito da democracia ocidental. “Medo” (Todavia), do premiado jornalista americano Bob Woodward, é um raio-x sobre os primeiros meses de Trump na presidência.
Em “Amanhã vai ser Maior” (editora Planeta), a cientista social Rosana Pinheiro-Machado traz a anatomia do distanciamento do discurso da esquerda com os mais pobres.
O melhor livro sobre as origens da recessão brasileira de 2014 a 2016 está no pequeno clássico “Valsa Brasileira” (Todavia). Nele, a economista Laura Carvalho relata a influência das reivindicações empresariais na Nova Matriz Econômica do governo Dilma (ironicamente batizada de Agenda Fiesp) e os erros da equipe econômica em acreditar que as medidas de incentivo que haviam dado certo após a crise de 2008/09 iriam ter novo sucesso a partir de 2012.
“Era do Imprevisto” (Companhia das Letras), do cientista político Sergio Abranches, é um sofisticado ensaio sobre a transição da legitimidade política no século 21. Otimista até onde se pode ser com o futuro, Abranches aborda o desencanto da democracia no mundo digital como um processo de transformação não necessariamente negativo.
*O autor é jornalista, foi porta-voz presidencial e ministro de Comunicação Social