Em quatro meses de quarentena, a produção de conteúdo para a TV — cada vez mais multiplataforma — tem conseguido se desdobrar em formatos que, se já não eram novidade na internet, estão mostrando uma capacidade de adaptação e um vigor criativo que parece ter se aguçado com as limitações impostas pelo distanciamento social.
No início da pandemia, houve muita gente que, em tom de anedota, afirmou ter tido a percepção da gravidade do novo coronavírus não pelos alertas da OMS, mas pela decisão da Globo de suspender a produção de sua teledramaturgia. Brincadeiras de lado, foi a primeira vez em sua história que a emissora carioca deixou de oferecer o produto que é indissociável a sua imagem. Um gênero que, por mais que ainda encontre dificuldades de se reinventar, está associado ao cotidiano brasileiro há quase seis décadas.
Já se ensaia o retorno às gravações, com previsão de mudanças tão profundas para garantir a segurança dos envolvidos que os novos modelos de produção devem ter um impacto também criativo e tecnológico. Novos hábitos que vão determinar do tamanho da equipe técnica e do elenco em cada estúdio às formas de encenação de contatos mais íntimos entre personagens. Nada será como antes? Ainda é cedo para determinar.
O que já é certo, no presente, é que a clausura da quarentena não está conseguindo prender a imaginação de quem produz atrações televisivas, de entretenimento e também de dramaturgia.
Lançada no atacado na Globoplay e exibida aos sábados na própria emissora, a microssérie “Diário de um Confinado” talvez não chamasse a atenção se tivesse sido lançada em outro contexto. O humor com um olhar meio melancólico sobre o cotidiano de Bruno Mazzeo é o mesmo de outros quadros já produzidos pelo comediante.
O que salta aos olhos é o programa ter sido produzido durante o isolamento sem nenhuma precariedade aparente. O acabamento é impecável, com sobreposição de câmeras, o que faz acreditar que o trabalho exigiu a participação de uma equipe presencial numerosa. Mas não se deixe enganar pelas aparências: a produção é caseira. O projeto é uma parceria entre Bruno e a esposa, a diretora artística Joana Jabace, com locação no próprio apartamento do casal. Mais “quarentener”, impossível.
Assistente de direção, montador, figurinistas, o pessoal da pós-produção... todo o trabalho foi realizado a distância, com reuniões por chamadas de vídeo. As interações do protagonista se dão basicamente da mesma forma, virtualmente, um retrato do dia a dia pandêmico da classe média brasileira. Bruno Mazzeo só contracena pessoalmente com uma atriz: Debora Bloch. Uma participação conveniente, já que a atriz mora no mesmo prédio do comediante.
Já as pílulas do “Sinta-se em Casa”, de Marcelo Adnet, exibidas na Globoplay e no Encontro com Fátima Bernardes, vão por outro caminho. Os esquetes de humor se aproveitam do ambiente doméstico para mostrar um orgulho mambembe que é o charme da atração, além do talento incontestável do humorista. A mulher dele, Patrícia Cardoso, é parte fundamental do processo de produção caseiro. O “Sinta-se em casa” é definitivamente a melhor atração global da quarentena por sua capacidade de inventar muito com muito pouco.
Ainda na linha do entretenimento, dois programas mais recentes brincam, também em cenário doméstico, com a estética dos encontros no Zoom que dominam a quarentena. Em “Sterblitch não tem um Talk Show: o Talk Show”, exclusivo da Globoplay, o humorista Eduardo Sterblitch consegue a façanha de reunir um auditório remoto, algo que começou a povoar a TV, e fazer isso funcionar, com uma boa edição. Já em “Cada um no seu quadrado”, Fernando Caruso e Paulo Vieira (o novo queridinho do humor na Globo) recebem convidados em uma sala de reunião virtual, e o resultado é dinâmico e divertido.
Os improvisos da produção audiovisual durante o período de isolamento se consolidaram de forma criativa, com a tecnologia, dos equipamentos mais avançados aos aplicativos mais populares, sendo sempre a coprotagonista do talento dos envolvidos.