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João Baptista Herkenhoff

Papa Francisco livra Marielle da condenação pública classista

Os santos não são apenas aqueles dos altares. A santidade está em toda parte. A santidade está também no Complexo da Maré, no Rio

Publicado em 27 de Março de 2018 às 17:33

Públicado em 

27 mar 2018 às 17:33

Colunista

Crédito: Andrew Medichini

Se o Papa Francisco telefonou para a mãe de Marielle Franco poucos minutos antes da missa celebrada em sufrágio da alma da vereadora assassinada no Rio de Janeiro, não poderá ser levantada a mão condenatória de quem quer que seja para censurar Marielle por qualquer um de seus atos. A mão que tenha o atrevimento de erguer-se é mão hipócrita, classista, mentirosa e injusta.

Não se encontra na Bíblia nenhuma palavra de Jesus pronunciada para verberar o ateu. Entretanto, Cristo foi implacável para condenar o fariseu que se ajoelhava e celebrava as glórias do Criador mas não se compadecia dos sofredores. Não nos esqueçamos de que Maria Madalena foi a predileta de Jesus.

O Papa Francisco é mesmo um seguidor do Messias. Não é de causar espanto que ele seja aplaudido não apenas pelos católicos, mas também pelos evangélicos, pelos espíritas e até pelos ateus, ou supostamente ateus.

Marielle Franco teve criação católica. Nasceu no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro. Ela se definia como “cria da Maré”. 

A Universidade Federal do Espírito Santo emitiu vigorosa nota de pesar e indignação e, através desta iniciativa, interpretou, sem dúvida, os sentimentos do povo capixaba

Em 1990, aos 11 anos de idade, começou a trabalhar, usando o salário para ajudar a pagar os seus estudos.

Posteriormente, exerceu a função de educadora infantil em uma creche. Ainda na juventude, participou de movimentos sociais. Em 1998, Marielle deu à luz sua primeira e única filha, Luyara. Naquele mesmo ano, matriculou-se na primeira turma de pré-vestibular comunitário oferecido no Complexo da Maré.

Em 2000, começou a militar pelos direitos humanos, depois que uma de suas amigas foi atingida fatalmente por uma troca de tiros entre policiais e traficantes. Em 2002, ingressou na Universidade Católica do Rio de Janeiro estudando Ciências Sociais com uma bolsa integral obtida através do Programa Universidade para Todos. Após graduar-se em Ciências Sociais, concluiu o mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense.

Os santos não são apenas aqueles dos altares. A santidade está em toda parte. A santidade está no Complexo da Maré. No nosso Estado, a morte de Marielle, felizmente, não teve o desprezo do silêncio.

A Universidade Federal do Espírito Santo emitiu vigorosa nota de pesar e indignação e, através dessa iniciativa, interpretou, sem dúvida, os sentimentos do povo capixaba.

Se durante toda a vida tive orgulho de ter sido professor da Ufes, num momento como este, em que os doutos se dobram à face dos humildes, o orgulho é carregado de emoção. A Ufes continua sendo não apenas um espaço de cultura e ciência, mas também um território de grandeza, democracia e reverência aos direitos humanos.

*O autor é juiz de Direito aposentado e escritor

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