A ideia da terra ser plana é antiga e permeia a forma como muitos povos se colocaram diante da vida e da forma como se relacionavam com o mundo a seu redor. Na era moderna, a proliferação de tecnologias de comunicação e plataformas de mídia social como o YouTube, Facebook e Twitter deram a indivíduos - alguns mais conhecidos, outros nem tanto - meios de difundir ideias pseudo-científicas, a fim de atrair seguidores. Conjecturas da Terra plana e outras em diversas áreas de conhecimento florescem em grande escala em redes sociais.
Florescem a partir de princípios fundamentalistas do tipo "acredite em mim". Fundamentalismo que encontra terreno fértil para prosperar em tempos como os atuais, quando é mais confortável aceitar "verdades" disponíveis em redes.
"Verdades" muitas vezes apresentadas por quem na academia e em veículos de comunicação defende de forma acrítica os interesses da financeirização mundializada. "Verdades" travestidas de números apresentados e que carecem de fundamentos.
Fundamentos que faltaram ao malabarismo dos que defendiam, por exemplo, o congelamento de gastos sociais por 20 anos. Congelamento para que o equilíbrio fiscal fosse restabelecido. Como dito equilíbrio depende mais de outros fatores - sistema tributário que grave menos a produção e o consumo de massa e que cobre mais dos ganhos especulativos financeiros e as grandes fortunas, dentre outros - o prometido equilíbrio está longe de ser alcançado.
Fundamentos que também faltaram na justificativa para retirada de direitos dos trabalhadores. Os novos postos de trabalho prometidos com a perda de conquistas histórica jamais vieram. Pelo contrário, na falta de uma política de crescimento consensuada com quem produz - principalmente micro, pequenas e médias empresas e seus trabalhadores -, a economia brasileira continua mergulhada em baixo ritmo de desempenho.
Fundamentos de que careceram toda a famigerada reforma da Previdência. Nem memória de cálculo para a prometida redução de gastos foi mostrada. No melhor estilo "acredite em mim", membros do Executivo e do Legislativo levaram adiante uma reforma que retirou dos que menos têm para manter privilégios dos de sempre.
Congelamento de gastos, retirada de direitos dos trabalhadores e reforma do sistema de seguridade social para quê? A economia para além do segmento dos ganhos financeiros continua com o pé na embreagem. Prometidos investimentos estrangeiros continuam avessos ao risco que se mantém em um Brasil comandado por financistas asseclas das finanças mundializadas.
Financistas de plantão em vários postos governamentais e que se agem como terraplanistas e fundamentalistas. Terraplanismo e fundamentalismo na condução de políticas para a educação, saúde, segurança, igualdade, cultura, crescimento econômico.
Terraplanismo e fundamentalismo que retiram protagonismo internacional, soberania econômica e tecnológica que tanto custaram para o país conquistar. Terraplanismo e fundamentalismo que tratam com desdém o Brasil, sua gente e seu patrimônio ambiental e cultural.