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29° Residência em Jornalismo

“O repórter que faz a diferença é aquele que tem muito cuidado com a informação que recebe”, diz Zileide Silva

A jornalista e apresentadora fala sobre desinformação, ética jornalística e formação de novos profissionais.

Publicado em 02 de Julho de 2026 às 14:18

Rubi Conde

Publicado em 

02 jul 2026 às 14:18
Zileide Silva na abertura da 29ª edição do Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta
Zileide Silva na abertura da 29ª edição do Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta Fernando Madeira

“Tem que ter ética com a informação. Isso é o principal. É a ética que vai fazer a diferença, que vai fazer de você um repórter sério nesse meio de excesso de desinformação”. A afirmação da jornalista Zileide Silva durante a palestra de lançamento do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta reforça a responsabilidade de um jornalismo confiável e de qualidade.

Repórter especial do Jornal Nacional e do Globo Repórter, Zileide conduziu um bate-papo com estudantes sobre os desafios do futuro da comunicação. A palestra seguiu o tema escolhido para a edição deste ano do curso: “Jornalismo de confiança na era da desinformação: formando repórteres que fazem a diferença em meio ao excesso de informação”.

Durante o encontro, os focas puderam fazer perguntas diretamente à jornalista. A programação também contou com momento de fotos e marcou a abertura oficial das inscrições para o curso.

Na passagem de Zileide por terras capixabas, esta reportagem conversou com a apresentadora eventual do Jornal Hoje sobre o avanço das fake news, o imediatismo na produção jornalística e os caminhos para preservar a credibilidade da informação. Confira:

A sua palestra começa com o título "Jornalismo de confiança na era da desinformação". Na sua visão, como o excesso de desinformação mudou a rotina e a responsabilidade dos jornalistas?

Eu não sei se, efetivamente, mudou. Acho que essa preocupação com a desinformação já é antiga. É um cuidado do jornalismo e do jornalista. Você sempre tem que ter uma dúvida quando recebe uma informação: será que essa é, efetivamente, a informação correta? Então, é preciso checar, conversar com outras pessoas. É aquilo que a gente sempre diz: você não pode ter apenas uma fonte, são necessárias várias fontes. Acho que isso é um pilar do jornalismo que não mudou.

Claro que hoje o volume de informações aumentou, principalmente com as fake news, e a IA também é um complicador. Então, isso faz com que você tenha ainda mais preocupação com a informação, com a ética e com o cuidado ao divulgar. Mas acho que isso é a raiz do jornalismo. Sempre tivemos esse cuidado: "Opa, será que é verdade? Posso passar isso adiante?". Esse é um cuidado que todo jornalista tem que ter, sempre.

O que você acha que diferencia o jornalismo de confiança nesse ambiente tão competitivo e acelerado em que vivemos?

Essa é uma preocupação nova. Um colega nosso, o Marcos Losekann, de Brasília, fala que estamos vivendo a época da "corrida do saco". Sabe aquela brincadeira em que você sai correndo, meio atrapalhado? É isso. Todo mundo quer dar a notícia primeiro, quer ser o primeiro a publicar, o primeiro a divulgar. Mas não pode ser assim.

É preciso parar, pensar, ter ética e muito cuidado na forma de transmitir essa informação. Eu lembro que a gente sempre falava: "Meu Deus, um 'erramos' do Bonner e caiu o mundo". Hoje é um "erramos" do Tralli, da Renata, enfim. Porque não pode ter esse "erramos".

O jornalista erra? Erra, porque somos humanos. Mas precisamos ter muito cuidado com a informação. Não dá para entrar nessa corrida. É preciso parar um pouco. Responsabilidade com a informação e ética são o que diferenciam o jornalismo profissional, o jornalismo sério, do influencer, de quem não tem essa responsabilidade.

Na sua trajetória profissional, houve algum momento em que informar corretamente fez toda a diferença? Algum caso específico? 

Um caso específico foi o 11 de setembro. Na época dos atentados, o mundo ainda não sabia quem era o autor dos ataques. Demorou para que essa responsabilidade fosse assumida.

Eu lembro que, em vários momentos, nós conversávamos sobre isso. Quem poderia ser? Quem teria tido essa coragem, essa ousadia? Discutimos muito. Foi a primeira vez que ouvi falar da Al-Qaeda e do Osama Bin Laden. Nós trocamos informações, debatemos bastante e, quando veio a confirmação, estávamos seguros para divulgar, porque havíamos refletido e apurado antes. Acho que esse foi um momento importante.

Outro momento em que a ética fez a diferença foi durante a cobertura dos atos de 8 de janeiro. Não sei se vocês se lembram, mas, durante a invasão do Congresso Nacional, havia uma voz orientando os policiais da Polícia Legislativa. O Ali Kamel, que era o diretor, disse: "Eu quero saber quem é essa voz".

Então, fui ao Congresso para investigar e descobri quem era. A pessoa aceitou falar porque confiou em mim. Não podia aparecer, por vários motivos, mas topou dar o depoimento e mostrar quem era. Acho que esse é o resultado da ética, do profissionalismo e da confiança que construímos ao longo do tempo. A pessoa sabe com quem pode falar e com quem não pode.

Como você acha que é possível combater a desinformação sem limitar o acesso à informação?

Acho que é exatamente por meio desse cuidado na apuração. É preciso ter responsabilidade, checar a informação, não ouvir apenas uma fonte, mas duas, três, quantas forem necessárias. Assim, você tem mais segurança sobre aquilo que está publicando ou transmitindo.

É isso que faz a diferença para quem ouve ou lê a informação e sabe que houve seriedade na apuração. É isso que faz com que as pessoas acreditem, confiem e passem a buscar informação com aquela fonte, com aquele profissional.

Se você pudesse dar uma dica para os futuros residentes do curso deste ano, qual seria?

Primeiro: leia, leia, leia e leia. Estude, estude muito.

Vai fazer uma cobertura? Pare e pense sobre aquilo. Busque informações antes. E, depois, tenha muito cuidado ao divulgar e publicar. É preciso ter seriedade e profissionalismo.

Não é fácil. Como eu disse há pouco, o jornalismo sempre foi alvo de críticas e agressões; hoje isso acontece ainda mais. Mas é isso: seriedade com a informação, responsabilidade com aquilo que está sendo divulgado e ética para transmitir os fatos. Acho que é isso que faz a diferença.

E leia, leia, leia. Ler é o que vai fazer você escrever melhor, falar melhor, se expressar melhor e ter pensamento crítico.

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