É notório no contexto atual nos encontrarmos com tantas pessoas armadas, não com pistolas ou revólver, mas armadas com munições de autoritarismo, autossuficiência e opiniões. Ouso dizer que esse “armamento” veio à tona com a redes sociais, onde todos se sentem com voz e com vez de dizer tudo o que pensam e opinar até no que não se tem opinião fundamentada e constituída. Por que escrever sobre esse assunto nessa quinta-feira?
Ontem, vivemos o Dia da Consciência Negra. Um dia pautado na luta e na defesa dos discriminados pela cor da pele e excluídos pela diferença. “O racismo, nos moldes em que vivemos", recorda Eliana Alves Cruz, jornalista e escritora brasileira, "é uma invenção dos brancos e é um assunto de todos, porque ele é a argamassa da nossa formação. Ele está na raiz em todas as questões sociais brasileiras”.
O mesmo Brasil que foi o maior território escravista do Ocidente, é o mesmo Brasil que abarca tanta gente preconceituosa, discriminadora e indiferente. Na minha opinião, a palavra indiferente é a mais adequada para expressar o preconceito, que significa uma aversão ou negação do diferente. Mas, no fundo, só discriminamos ou excluímos quando estamos armados de razão. Só atacamos quando estamos munidos de nós mesmos e convictos que basta apenas os “como eu”, quanto aos diferentes, isola.
Quando pequeno, sempre ouvia na comunidade, em casa, ou até noutros ambientes, alguém dizendo “fulano disse algo que desarmou fulano”. Me parece que o desarmar neste contexto é uma forma de deslocar o sujeito da “sua verdade”. Mas é isso mesmo. Nos tempos atuais, é crescente os tremendos ataques em comentários de publicações, postagens, notícias, enfim, é crescente a quantidade de juízes sem togas julgando seres da sociedade.
Quando estamos armados de nós mesmos, perdemos a capacidade de sentar para conversar com outro, afinal, conversar vai me exigir ouvir o que o outro tem a me falar, e a quem está armado, lhe cabe apenas disparar suas munições de “verdades”. Quando permito que o diálogo seja suprimido pela soberba, posso dizer que estou sendo autor do pior caos social, o caos da desumanidade, afinal, repito, envergadamente, eu estou tirando a essência do humano, que é a alma, a alma que compreende, que escuta, que sente, e estou armando-o da pior armadura, do “si mesmo”.
O mundo está gritando em suas consequências por um pouco mais de alma. A sociedade precisa disso. Talvez o pedido mais urgente a ser feito numa celebração que evoca a superação do preconceito é esse: dê um pouco mais de alma, Senhor, para desarmar essa gente que precisa ser gente diferente da gente.