Homero Mafra*
Soube ontem de manhã. Fiquei sem chão. Tinha acabado de perder meu professor de OAB. Morrera Agesandro da Costa Pereira. A OAB está de luto. A advocacia capixaba está de luto. O Espírito Santo está de luto.
Perdemos Agesandro da Costa Pereira, nosso ex-presidente, nosso sempre Presidente. Fui vice-presidente da OAB, com Agesandro, em dois mandatos: 91/93 e 93/95. Aprendi muito com ele. Sempre tive em Agesandro um espelho. Foi meu professor de OAB.
Exemplo de retidão, de postura ética, de advogado combativo, de líder da sociedade civil, Agesandro nunca faltou às grandes lutas da sociedade capixaba. A Ordem e os valores da advocacia foram sempre seu norte. Vivia a Ordem e para a Ordem. Aqui era sua casa, seu templo, sua vida. Foi sempre, e até o último momento, um advogado a ponto de, mesmo adoentado, já no hospital, dar uma de suas aulas a um neto, sobre matéria de direito.
Recebeu, do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, por sua atuação institucional, a medalha Ruy Barbosa, nossa maior comenda.
Intransigente na defesa das prerrogativas profissionais foi, também, a grande liderança da sociedade civil num dos momentos mais difíceis vividos em nosso Estado. A sua atuação à frente do Fórum Reage Espírito Santo foi retratada com fidelidade na nota emitida pelo Governo do Estado: “À frente da OAB e no Fórum Reage Espírito Santo, Agesandro atuou de forma essencial para o resgate das instituições públicas e contribuiu para a virada de página do Estado como um militante ativo da ética e legalidade”.
Estou sem chão, e as palavras pingam.
Lembro-me de uma ocasião em que cheguei indignado à Ordem, reclamando que uma pessoa tinha sido proibida de entrar na Justiça Federal em razão de estar calçando sandálias. No indignado ofício que escreveu, protestando contra aquele absurdo, disse Agesandro que um homem fora barrado naquele “próprio federal” simplesmente por “estar vestido com a dignidade que lhe permitia sua condição de miserável.”
De Agesandro recebi lição inesquecível: “Advogado não precisa ter coragem pessoal. Advogado precisa ter coragem ética”.
Aliás, no depoimento que presta por ocasião dos 80 anos da OAB-ES relata que foi procurado por um delegado federal que lhe perguntou: “O senhor não tem medo?”. Ao que meu professor respondeu: “Medo eu tenho. Mas tenho deveres”.
Meu professor se foi.
Estou triste. Muito triste.
* O autor é advogado e presidente da OAB–ES