O carnaval é uma grande festa popular, vivenciada na alma do povo, revelando profundos sentimentos. Por muito tempo visto como espaço livre de tensões, o carnaval, em suas variadas formas, é compreendido atualmente como um eixo importante de articulações e diálogos entre múltiplas áreas do saber.
Tradicionalmente relacionadas com as chamadas manifestações populares, as festas carnavalescas possuem dinâmicas que ultrapassam limitações conceituais e se apresentam como lugares privilegiados para a compreensão e discussão de importantes questões da contemporaneidade. O carnaval pode e deve ser compreendido como expressão da cultura popular em seu significado mais atual.
Não a cultura “feita pelo povo” ou a cultura “feita para o povo”. Mas a cultura que se estabelece dinamicamente além das institucionalizações oficiais. Uma cultura que consome e se oferece ao consumo e, neste movimento, produz práticas que estabelecem perguntas, desejos e respostas.
Assumindo novas formas a cada momento, preenchendo vazios, invadindo espaços, reinventando constantemente novos significados para antigas tradições, ou novas tradições para antigos significados. Estabelecendo novas fronteiras.
Após a colonização, o carnaval brasileiro tornou-se originalmente independente dos festejos de sabor africano e dos bailes de máscaras realizados na Europa pelos portugueses, de onde teria se originado. O carnaval brasileiro adquiriu personalidade como cultura do seu povo. Vieram os sambas, as marchas e os frevos, ensaiando e divulgando o comportamento e os sentimentos da população.
Os blocos, os bailes de carnaval nos clubes e nas grandes associações, e as escolas de samba se difundiram por todo o país. Aqui em Vitória os bailes do Saldanha da Gama, Clube Vitória, Alvares Cabral. E o Libanês, na Praia da Costa, em Vila Velha.
Temos verdadeiros monstros sagrados da música popular brasileira. Zé Ketti fez um poema dificilmente igualado: “Quanto riso, quanta alegria. Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é Carnaval”. Já o compositor Zé da Zilda após a morte do seu grande amor, escreveu: “Vai amor, vai que depois eu vou”. Vivamos o nosso carnaval. Comecemos pelo carnaval capixaba, com os desfiles das escolas de samba no Sambão do Povo, com tudo que temos direito. Carnaval é cultura, ou alguém ainda duvida?
*O autor é presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha