Quando cursava o ginasial, fizeram-me decorar um divertido texto, exemplo do que se conhecia como “linguagem bestialógica”. Na verdade, um feixe de asneiras que sugeria grande erudição. Ainda tenho ele na ponta da língua.
Vejam só: “Neste momento solene em que o sesquipedal hipocondríaco fala, desejo anatematizar, inconstitucionalmente, a deblateração evolutiva dos esplenálgicos”. Serviu-me apenas para fazer rir a família, num único fim de semana e agora para abrir a crônica deste sábado. Só.
Armazenei em minha cachola isso e mais uma porção de fórmulas, equações e até mesmo acidentes geográficos que já não me servem pra coisa nenhuma. Tipo os afluentes da margem direita do rio Amazonas. Lembram-se? Javari, Juruá, Tefé, Coari, Madeira, Purus... um monte de informação empoeirada a pesar demais no embornal da memória. Vejam só o caso da famosa “Matriz de Leontief” que entrou na minha vida durante o curso de economia.
Se bem me lembro, o premiado economista russo inventou uma matriz de insumo-produto para servir ao planejamento tanto das economias centralmente planejadas, como para aqueles que praticam a economia de mercado. Pergunto o que mais eu poderia fazer com essa bendita matriz? Eu, um calçadense aposentado, rico de poucos e bons amigos, dedicado à leitura e à cozinha, fã do bolero, do tango, dos Beatles, do balanço musical do Simonal e da doce voz de Tieta Amarante.
Preciso deletar esse monte de bagaços de outrora que mofam no meu samburá. Hoje em dia prefiro trocar com quem quiser a fórmula mágica para determinar o máximo divisor comum entre dois números (o mínimo múltiplo comum também está no meu estande de trocas) por uma boa receita de galinha d’Angola. Mil vezes mais útil para mim, hoje em dia.
Aceito também uma muda de banana-da-terra de quem se interessar em aprender a somar frações com denominadores diferentes. Mas quem quereria barganhar esses conhecimentos quando qualquer smartphone mambembe tem tudo isso na ponta da língua?
Um amigo, vizinho nosso, me ensinou a construir um rádio com cristais de galena. Simples demais. Capta emissoras AM locais sem uso de nenhuma forma de energia. Nem elétrica, nem de bateria, nem de pilhas. Algo mágico. Mas quem vai querer essa incrível traquitana nos dias de hoje? Uma preciosidade do passado que segue mofada nos meus guardados. Como um vidrinho de Cera do Dr. Lustosa. Ou uma caixa postal nos Correios.
Naqueles tempos em que cueca tinha botão, eu sabia construir, com alguma competência, arapucas com os talos secos das folhas da embaúba. Perfeitas pra pegar rolinhas. Fritas, elas eram uma delícia. Mas hoje não se pode mais caçar pra comer. Exceção aos peixes. Mas com eles é preciso ficar atento. Só ponha na moqueca peixes inteligentes. Aqueles que dão no pé quando a mancha de óleo se aproxima.