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Cotidiano

Observadores, bebês dizem sempre o que precisa ser dito

Ontem mesmo cruzei com um lourinho de olhos azuis, com a cara muito fechada, num carrinho empurrado pela mãe. Ao me ver, apertou os olhinhos com a mesma irritação que eu senti ao quase ser atropelado na calçada por um ciclista audaz

Publicado em 09 de Novembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

09 nov 2019 às 04:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar Marcos Alencar
Bebês são grandes comunicadores Crédito: Amarildo

O lema dos escoteiros – Sempre alerta! – também faz parte do cotidiano dos bebês. De todos eles. Meninos e meninas. Discretos, os baixinhos não estendem a mão esquerda para o cumprimento e nem levantam três dedos da mão direita para saudar os companheiros. Mas estão sempre alertas.

Antes mesmo de completar um ano, esses nenéns já falam pelos cotovelos. Quer dizer, falam através dos olhos. E não fazem média com ninguém. Extremamente observadores e altamente críticos, bebês dizem sempre o que precisa ser dito.

Ontem mesmo cruzei com um lourinho de olhos azuis, com a cara muito fechada, num carrinho empurrado pela mãe. Ao me ver, apertou os olhinhos com a mesma irritação que eu senti ao quase ser atropelado na calçada por um ciclista audaz. O neném me indagou, entre uma piscadela e outra, por que as autoridades responsáveis não caem de pau na galera que finge não saber o significado da palavra pedestre.

O molequinho tinha cara de que nasceu sabendo que ciclista é ciclista e pedestre é pedestre. E continuou falando, sem piscar uma vez sequer: “Moço, estes marcianos (debochadinho, o gente fina) têm tanta certeza de que são pedestres que, se um carro não parar para eles atravessarem na faixa, querem logo sair no tapa. Não tá mole não, parceiro”.

Num dia de muito calor, sol a pino, cruzei com duas moreninhas, gêmeas que elas só, esnobando um carrão do ano. Alegres e faceiras elas arrasavam na entrada da pracinha Manolo Cabral. Iam ao encontro de amiguinhas, reunidas debaixo do caramanchão . O sol forte não as incomodava. Usavam óculos escuros. Cheias de charme.

Chegando mais, perto notei a careta que faziam ao serem beijadas por uma amiga da mãe. O olhar de uma pra outra dizia, claramente, para quem quisesse entender: “Eita!”. Vovó diz que antigamente as mulheres se perfumavam após o banho. Hoje em dia, um mundo de mulheres e homens prefere mesmo é tomar banho de perfume!

A bordo de um carrinho importado – rodas de aro 15, acho – o ruivinho empurrado pela babá não trazia a carinha serena, comum a toda população sub-dois anos. Olhar irritadiço mirando os cento e oitenta graus ao seu redor. O que poderia estar apoquentando o pequerrucho? Uma fralda mijada? Uma chupeta perdida? Fominha?

Levantei essas e mais uma meia dúzia de hipóteses sem chegar a uma conclusão . Sim, porque sem chupeta, fralda encharcada, fome e mais meia dúzia de outras possibilidades capazes de aporrinhar um nenenzinho provocariam choro na certa. E ele nem sequer abria a boca para respirar. O moleque era a própria encarnação do mau humor.

Cada vez mais curioso, resolvi indagar da motorista do enfezado a razão de tanto desconforto. Aproximei-me e buscando ser simpático, fui logo comentando: “Que menininho mais bonitinho! Como é nome dele?”

“Jair”, ela me respondeu.

Ah... agora entendi. Tadinho

Marcos Alencar

Marcos Alencar Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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