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História

No ES, pastor Loren Reno defendeu o Estado laico e a democracia

Ponderou pelo afastamento entre política e religião: “Do campo espiritual para o terreno da política, é natural que não deva descer. Cada qual em seu lugar”

Publicado em 28 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

28 jan 2020 às 04:00
Herbert Soares

Colunista

Herbert Soares

Colégio Americano Batista de Vitória Crédito: Acervo do IBGE
As indagações do presente nos levam ao passado para analisar a trajetória de um ícone da Igreja Batista, o pastor e missionário Loren Marion Reno, nascido na Pensilvânia (EUA) e radicado no Espírito Santo a partir de 1904, quando passou a conquistar espaço na sociedade capixaba e tornou-se referência na área da educação.
Ao lado da esposa Alice Reno, fundou e dirigiu o Colégio Americano Batista de Vitória e, durante décadas, foi o principal nome batista no Espírito Santo. Sua morte, em 4 de março de 1935, repercutiu no jornal Diário da Manhã, um dos mais importantes da capital, que exaltou sua figura e a multidão no cortejo fúnebre, incluindo a presença da principal autoridade da época, o Interventor Federal no Estado, João Punaro Bley.
Interessa-nos observar que as relações entre política e religião foram alvo das reflexões do pastor Loren Reno, homem de formação universitária e defensor convicto do Estado laico, que em fevereiro de 1916, num pequeno artigo publicado no Diário da Manhã, declarou: “Jamais ousarei rebaixar meu posto, minha posição, embora humilde, intrometendo-me na política”.
Prosseguindo, enfatizou a recusa de convites para participar ativamente da disputa eleitoral, além de rejeitar o papel de orientador político dos batistas capixabas: “Confio que os batistas deste Estado são bem suficientes para exercerem os direitos de cidadãos e gozarem dos privilégios lógicos do voto, sem que um estrangeiro como eu lhes vá recomendar que votem neste ou naquele”.
Adiante, ponderou pelo afastamento entre política e religião: “Do campo espiritual para o terreno da política, é natural que não deva descer. Cada qual em seu lugar”. Em outro trecho lembrou que os pontos de vista são diversos e devem ser respeitados: “Cada qual tem sua própria opinião e votará de acordo com esta; alguns com o governo, outros com a oposição”.
Ressalte-se, portanto, que mesmo sendo uma inspiração para muitos capixabas daquele período, em nenhum momento o líder batista se colocou como dono da verdade ou um guia político dos fiéis. Na verdade, ao encerrar dizendo que “a decisão da maioria deve ser respeitada”, tratou os eleitores com humildade e defendeu o direito de escolha de cada cidadão.
Por fim, importa destacar que o estilo de Loren Reno diverge de muitos líderes de denominações evangélicas do nosso tempo. Tal liderança, aliás, cada vez mais ligada ao grupo que venceu a eleição presidencial em 2018, tem buscado impor sua agenda e seus valores ao país, algo que fere a laicidade do Estado e prejudica a democracia.
Um século depois e as opiniões de Loren Reno servem de alerta. Sem dúvida, a prudência, a humildade, o necessário distanciamento entre política e religião e o respeito à democracia, características defendidas pelo missionário norte-americano, continuam válidas e merecem consideração.

Herbert Soares

É mestre em História pela Ufes. Neste espaço, a história capixaba é a protagonista, sem deixar de lado as atualidades. Escreve às terças.

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