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Papa Francisco defende reforma política e econômica contra novas crises

A obra "Vamos Sonhar Juntos", produzida em colaboração com o jornalista Austen Ivereigh, apresenta a visão de Francisco para um novo mundo pós-pandêmico

Publicado em 23/11/2020 às 17h52
Atualizado em 23/11/2020 às 17h52
Papa Francisco na Praia de Copacabana,  durante a celebração da Missa de Envio. 28/07/2013
Papa Francisco na Praia de Copacabana, durante a celebração da Missa de Envio. 28/07/2013. Crédito: ANDRÉ LUIZ MELLO/AGÊNCIA O DIA

Em seu novo livro, escrito em resposta aos desafios da pandemia de Covid-19, o papa Francisco critica os negacionistas da crise global de saúde pública, defende a criação de uma forma de renda básica universal e afirma que a discriminação contra imigrantes e religiões não cristãs vai contra a mensagem de Jesus.

"Vamos Sonhar Juntos", obra produzida em colaboração com um de seus biógrafos, o jornalista britânico Austen Ivereigh, apresenta a visão de Francisco para um novo mundo pós-pandêmico. Para o pontífice, sem uma reforma profunda da economia, da participação política e da maneira como a humanidade tem interagido com o ambiente, tragédias ainda piores continuarão a acontecer, ainda de que maneira mais silenciosa.

"Estou convicto de que aquilo que Francisco tem a compartilhar conosco no livro é extraordinariamente importante. É o que o mundo precisa ouvir neste momento", disse Ivereigh em entrevista coletiva sobre o trabalho, feita por videoconferência.

O escritor conta que ele e o papa começaram a dar forma ao manuscrito depois de uma entrevista com Francisco que ele tinha publicado em periódicos católicos de língua inglesa, em março.

"Nós seguimos um modus operandi não muito convencional, sem grande contato direto, mas com um diálogo muito intenso. Para começar, enviei para ele uma série de perguntas por email, que ele respondeu com gravações de voz, com algumas horas de duração", explica Ivereigh.

O escritor também levou em conta os escritos de toda a carreira do pontífice argentino, incluindo os feitos quando ele ainda era arcebispo e cardeal, para produzir um esboço que depois foi corrigido e ampliado por Francisco.

"O resultado é um livro que é dele, em todos os aspectos. A minha contribuição foi encontrar uma estrutura narrativa, que é algo que costuma dar muito trabalho", resume o jornalista.

É uma estrutura que, aliás, será bastante familiar aos olhos dos setores mais à esquerda da Igreja Católica no Brasil e na América Latina. Trata-se do chamado método "ver-julgar-agir" (ou, como prefere o papa, "contemplar-discernir-propor"), muito empregado pelos católicos latino-americanos como forma de enfrentar desafios como a desigualdade social, tema também caro a Francisco.

Do lado do diagnóstico, o líder católico aplica à Covid-19 algumas das linhas mestras de seu pontificado. Para ele, as forças globais do individualismo e do poder econômico deixaram os mais vulneráveis, como os pobres e os idosos, à mercê dos piores efeitos da pandemia. O populismo político, cuja missão supostamente é enfrentar essas forças globais, na verdade transforma o povo de carne e osso numa massa amorfa e só piora a situação, afirma o livro.

"Alguns protestos durante a crise da Covid-19 suscitaram o espírito indignado do vitimismo, mas dessa vez entre pessoas que são vítimas apenas na própria imaginação. Como as que reclamam que a obrigação de usar máscara é uma imposição injustificada do Estado, mas se esquecem, ou não se importam, de todos os que, por exemplo, não contam com previdência social ou que perderam o emprego. Transformaram em uma batalha cultural o que na realidade se tratava de um esforço para garantir a proteção à vida", diz o papa.

Os negacionistas da doença também são os que, em geral, afirmam estar tentando salvar a "cultura ocidental", num movimento que de cristão só tem o nome, afirma Francisco.

"Pessoas não crentes ou superficialmente religiosas votam para que os populistas protejam sua identidade religiosa, sem levar em conta que o medo e o ódio ao outro são incompatíveis com o Evangelho. Rejeitar um migrante em dificuldade, seja ele da religião que for, por medo de diluir a cultura 'cristã' é uma deturpação grotesca tanto do cristianismo como da cultura."

Se as frases acima resumem o diagnóstico do papa, o "tratamento" receitado por ele tem três grandes pilares. O primeiro é o que ele chama de ecologia integral, um despertar para uma relação mais harmônica entre os seres humanos e o resto da Criação divina capaz de deixar para trás o crescimento econômico como a única meta de empresas e governos. Francisco diz, inclusive, que sua conversão ecológica começou em 2007, no santuário brasileiro de Aparecida, quando se surpreendeu ao ver as muitas referências à Amazônia feitas pelos bispos latino-americanos reunidos lá.

O segundo envolve o apoio de Francisco à renda básica universal e a outras medidas ousadas contra a desigualdade e o desemprego, como a redução da jornada de trabalho e o reconhecimento de que atividades não remuneradas, como o cuidado familiar para com crianças e idosos, também devem ter o mesmo status do trabalho formal, mesmo que não envolvam salário.

Por fim, o pontífice coloca suas fichas no protagonismo dos movimentos populares mundo afora, como o dos "cartoneros" ou catadores de papelão com quem conviveu em Buenos Aires. Para o papa, a capacidade de organização "a partir de baixo" e a solidariedade desses grupos podem ser a semente para relações sociais mais justas e fraternas.

Em resposta à pergunta da reportagem sobre a aparente oposição de boa parte da hierarquia da Igreja a esse tipo de proposta, Ivereigh disse que, de fato, existe uma oposição feroz a Francisco. "Mas talvez tenhamos uma tendência a superestimar o tamanho dela em termos numéricos. O que este livro tem a dizer pode levar muita gente dentro da Igreja a repensar o significado de comunidade e missão."

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