Publicado em 24 de setembro de 2021 às 16:22
A dois dias das eleições que vão definir o próximo governo da Alemanha, jovens ambientalistas protestaram em várias cidades do país para pedir ações mais contundentes de combate à crise climática. >
Em Berlim, Greta Thunberg, ativista sueca que no ano passado foi recebida pela primeira-ministra Angela Merkel, disse em discurso nesta sexta (24) que nenhum dos partidos políticos está suficientemente comprometido com o problema.>
Além de Berlim, houve protestos em Bonn, Colônia, Hamburgo e Friburgo, como parte de um movimento programado em 80 países.>
O assunto está definitivamente na cabeça dos eleitores. Para 81% dos alemães pesquisados pela ARD-DeutschlandTrend em julho, há necessidade muito grande ou grande de agir na proteção do clima.>
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No Politbarômetro, levantamento do Forschungsgruppe Wahlen que toda semana pergunta quais são os problemas importantes da Alemanha, clima foi citado na semana passada (17) por 47%, na dianteira das preocupações.>
Pode parecer contraditório que apesar disso os Verdes sejam apenas o terceiro partido nos levantamentos de intenção de voto, com 16% na média, enquanto os sociais-democratas (SPD) aparecem com 25%, em empate técnico e em disputa cada vez mais acirrada com os democratas-cristãos (União), com 22%.>
Mas isso acontece porque todos os principais partidos, com exceção da ultradireitista AfD, têm propostas para combater a crise climática -as diferenças são com que velocidade e por que meios.>
"Trata-se da disputa sobre quão fortemente a política climática deve intervir nos estilos de vida e na economia", diz Ursula Münch, diretora da Academia de Educação Política em Tutzing.>
Os Verdes são pela transição mais rápida: querem que motores a combustão sejam eliminados até 2030. A candidata a primeira-ministra do partido, Annalena Baerbock, defendeu na campanha que até lá os carros a gasolina e a diesel deixem de ser vendidos.>
A meta dos Verdes é vista como radical demais pelo candidato da União, Armin Laschet, que vê risco de alto desemprego na indústria automotiva, grande fonte de receitas para o país.>
Segundo o conservador, que é contra prazos limites para os veículos, são incentivos de mercado e deduções de imposto que farão a indústria acelerar a transição verde.>
Olaf Scholz, candidato social-democrata, por sua vez, diz que é preciso investir em infra-estrutura e rede elétrica de alto desempenho para levar energia limpa às indústrias. Em debates na TV neste mês, ele disse que sua meta é neutralizar as emissões do setor industrial em 25 anos.>
Para os ativistas da chamada "geração Greta", é preciso agir mais rapidamente, o que significa alterar de forma mais intensa o cotidiano de pessoas e empresas.>
Uma das queixas dos manifestantes é que a Alemanha não tem cumprido suas metas de redução de emissões de gás carbônico, necessárias para cumprir o Acordo de Paris.>
Ao assinar o acordo, a Alemanha e outros 194 países se comprometeram a implantar programas para conter o aquecimento global a no máximo 1,5 grau Celsius acima da temperatura média global do período pré-industrial.>
Foi justamente pelo peso da indústria automobilística na economia alemã e na política dos conservadores que o governo de Merkel é avaliado de forma ambígua por ambientalistas.>
A própria primeira-ministra foi uma das líderes mais identificadas com o combate às emissões nos anos 1990 e 2000, mas sua abordagem mudou depois da recessão provocada pela crise global de 2008.>
Os conservadores trabalharam para assumir metas menos ambiciosas na lei do clima aprovada em 2019, o que acabou sendo contestado na Justiça justamente pela geração Greta.>
Os planos de Merkel deixavam a maior parte do fardo para as próximas gerações, argumentaram o movimento Fridays for Future (sextas-feiras para o futuro, liderado por Greta) e entidades como Greenpeace e Amigos da Terra da Alemanha.>
A Suprema Corte do país deu razão aos reclamantes e ordenou ao governo que adotasse metas mais duras e deixasse mais claro como elas serão obtidas, numa vitória para os ativistas.>
Na ocasião, políticos do SPD -que fazem parte da coalizão governista e ocupam o Ministério do Meio Ambiente- afirmaram que foi a União que barrou em 2019 a adoção de metas mais ambiciosas.>
Scholz, que é vice-primeiro-ministro de Merkel, voltou à carga em debate nesta semana, afirmando que o partido de Laschet "tinha dúvidas" sobre a necessidade de aumentar a produção de energia verde. "A CDU/CSU está do lado errado dessa questão tão importante para o futuro industrial da Alemanha", disse ele.>
Para a ativista alemã Luisa Neubauer, que dirige no país o Fridays for Future German, todos estão do lado errado e é preciso elevar a pressão nas ruas antes da votação, neste domingo (26). "Os partidos políticos não levaram a catástrofe climática a sério o suficiente, e os jovens não aceitam mais desculpas sobre o mundo que vão herdar.">
No discurso em Berlim, Greta Thumberg acusou a Alemanha de não fazer nem ao menos o necessário para cumprir as metas acordadas no passado.>
Embora as emissões tenham caído em 2020, por causa da pandemia de coronavírus, a retomada deve provocar neste ano uma alta de 6%, o maior aumento em 30 anos, de acordo com o centro de estudos Agora Energiewende.>
A questão ambiental movimenta também um aspecto bem mais corriqueiro das eleições alemãs: os cartazes de propaganda dos candidatos.>
Sua exposição é permitida e até protegida por lei, e há regras detalhadas sobre onde eles podem ser colocados, onde são proibidos -em escolas e prédios públicos, por exemplo.>
Nas cidades visitadas pela Folha de S.Paulo, o volume de propaganda é modesto e se concentra nas ruas principais. Em Gelsenkirchen, na região oeste do país, o mais comum era que houvesse no máximo um cartaz por poste.>
Em Hassloch, mais a sudoeste, há postes nos quais se empilham até quatro pôsteres diferentes, e também é possível notar que alguns foram arrancados.>
Em cidades maiores, como Berlim, regiões de maior passagem de pedestre podem ter acúmulo dessa propaganda, como mostram fotos em sites jornalísticos.>
Estados e municípios também determinam quando eles podem começar a ser colocados -por volta de seis semanas antes da votação-, e em quanto tempo precisam ser retirados.>
Em geral, partidos devem mobilizar suas equipes para limpar todos os postes em no máximo duas semanas depois da eleição, para evitar multas. Em Berlim, o prazo é de uma semana.>
É nesse ponto que começa o problema: qual o destino dessas centenas de milhares de cartazes? Ativistas ambientais reclamam que parte deles não pode ser reciclada e acaba nos incineradores de lixo, provocando desperdício e poluição.>
Entidades começaram campanhas para que partidos mandem fazer seus pôsteres não de carvão, mas de polipropileno -um plástico de alta qualidade, ideal para reciclagem.>
O papelão, afirmam, costuma ser tratado com produtos químicos para sobreviver à chuva, e isso torna esses cartazes inadequados para a reciclagem.>
Merkel foi de 'chanceler do clima' a 'rainha das montadoras' "A questão do aquecimento global é, na minha opinião, uma das questões ambientais mais importantes com a qual temos que lidar", disse em 1995 Angela Merkel, apontada como ministra do Meio Ambiente pelo premiê Helmut Kohl.>
Nesse mesmo ano, foi ela que organizou em Berlim a primeira COP (conferência da ONU sobre a crise do clima), que chega agora à 26ª edição.>
De lá para cá, sua atuação na área oscilou e divide opiniões dos cientistas e ativistas da área. A economia alemã é a sexta maior emissora de carbono do mundo, e quase um terço da eletricidade vem de termelétricas movidas a carvão ou linhito, combustíveis altamente poluentes.>
As emissões alemãs de carbono per capita são maiores que as do Reino Unidos e as da França, segundo a Edgar (base de dados de emissões para pesquisa global atmosférica, na sigla em inglês): 9,4 toneladas por pessoa na Alemanha, contra 5,6 e 5,1 nos outros dois principais países europeus.>
Um sinal de que pouca coisa avançou talvez seja o discurso da própria Merkel em julho deste ano, falando a estudantes americanos da Universidade Johns Hopkins. Passados 26 anos depois da declaração como ministra, ela continua descrevendo a crise climática "o desafio de nossos tempos".>
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