Surgida em 2014, a campanha Janeiro Branco busca alertar à população sobre a importância da saúde mental, disseminando conhecimento e informações sobre depressão, ansiedade e outros transtornos, contribuindo para diminuir o preconceito que ainda paira quanto ao tema e à busca por ajuda de profissionais da psiquiatria e da psicologia.
Já tive a oportunidade de escrever que tal preconceito é ranço dos tempos em que não se sabia como lidar com qualquer tipo de doença mental, o que retarda ou impede o tratamento, podendo agravar os sintomas. A psiquiatria é uma especialidade relativamente nova e teve como marco o trabalho dos médicos franceses Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol, que defenderam que quem sofre de transtornos mentais é doente e, por isso, deve receber tratamento médico.
Hoje, a ciência já sabe que os transtornos mentais são um verdadeiro processo químico e seu aparecimento independe da vontade da pessoa. Por isso, elas precisam de tratamento médico e psicológico e, muitas vezes, dependem de intervenção medicamentosa.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os transtornos mentais são responsáveis por mais de um terço do total de incapacidades nas Américas (principalmente os transtornos de humor e de ansiedade), entretanto, os investimentos ainda estão aquém do necessário para assegurar o tratamento e acompanhamento nos sistemas públicos de saúde. O Brasil ocupa a 11ª posição entre os países com mais ansiosos. E a tendência, mantido o panorama atual, é que a situação se agrave.
Não é incomum que transtornos mentais sejam diagnosticados com maior frequência em pessoas mais jovens. Ademais, nota-se um movimento global indicativo de desequilíbrio emocional, basta atentar aos crescentes conflitos decorrentes de questões banais, o aumento das intolerâncias, a escalada da violência gratuita e alta competitividade nas relações interpessoais, que, por sinal, estão cada vez mais esvaziadas em seus conteúdos.
Na 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a Associação Americana de Psiquiatria propôs a correta abordagem para questões atuais no âmbito da saúde mental, como no Transtorno do Luto Complexo Persistente, no Transtorno do Jogo pela Internet e no Transtorno Neurocomportamental Associado a Exposição Pré-natal ao Álcool.
Todos esses novos e os demais transtornos já catalogados não são “mimimi”, eles impactam na vida social, profissional e pessoal, podendo trazer a tona embotamento (redução significativa da intensidade da expressão emocional), labilidade (variabilidade anormal do afeto com mudanças repetidas, rápidas e abruptas na expressão do afeto), agitação psicomotora, alogia (empobrecimento do pensamento inferido pela observação da fala e do comportamento relativo à linguagem), anosognosia (uma pessoa com uma doença parece não ter conhecimento da existência desta) e fatigabilidade (tendência a ficar facilmente fatigado).
Daí a importância do Janeiro Branco. O ideal seria que todos passassem por uma avaliação de saúde mental e frequentassem uma terapia, ao menos para aprender a conviver melhor com aqueles que precisam dessa ajuda e não procuram.