Após o desfecho do julgamento do habeas corpus de Lula no STF, que permitiu a prisão do ex-presidente, um dirigente do Movimento Sem Terra (MST) ameaçou ontem ocupar prédios públicos e terras. “Não tem mais valsa. É porrada, é guerra, é luta e venceremos”, disse, para logo em seguida, em um discurso esquizofrênico, pregar “paz e democracia”.
O uso da força para fazer valer posições políticas não é somente condenável, como também inadmissível. Disso sabemos. Mas incitar a violência em nome da democracia vai além: é uma aberração ideológica, um proselitismo perigosíssimo em um Brasil tão polarizado.
Estado democrático ainda imberbe, com baixa representatividade de grupos minoritários e altos níveis de corrupção, o país só tem a perder com manifestações inflamadas de líderes políticos, à esquerda ou à direita. Seja qual for a justificativa, seja qual for a bandeira que se branda, a violência não pode ser tolerada como instrumento de luta política, sob o risco de cairmos na barbárie.
Uma derrota no campo jurídico ou a insatisfação com os rumos do país não devem servir como salvo-conduto para atos que atentem contra a dignidade humana e o respeito às instituições democráticas. Decisões da Suprema Corte, se consideradas iníquas ou tendenciosas, não embasam quebra-quebras, apenas permitem contestações em observância às leis.
Para consolidarmos o Estado de Direito e alcançarmos a maturidade da sociedade civil organizada, o pragmatismo político nunca pode se sobrepôr a valores como justiça e respeito às diferenças. Esse pensamento, como a História – inclusive a nossa – nos prova, é o motor de absolutismos e ditaduras. Desnecessário dizer que esses nunca foram caminhos sensatos.