Quando o ato sexual, por algum motivo, começa a diminuir, o clima fica estranho entre o casal e essa ausência pode gerar frustração, insegurança e distanciamento. Mas transformar o sexo em dever pode criar ainda mais tensão. Então, é melhor entender o que a “falta de sexo” está tentando dizer.
Frases como 'A gente não transa mais como antes', 'Ele não me procura mais' e 'Ela nunca está com vontade' aparecem com frequência nas queixas sexuais do consultório. Há pessoas que até tentam normalizar esse movimento, mas não deveriam, pois ele carrega uma série de significados dentro de um relacionamento — principalmente se for sinal de distanciamento, ressentimento ou até de que algo deixou de funcionar na relação.
Mas afinal, existe uma quantidade “certa” de relações sexuais que um casal deve ter?
Não existe uma quantidade universal de sexo para definir se um relacionamento é saudável. Um estudo do Social Psychological and Personality Science, com dados de mais de 30 mil pessoas, mostrou que a associação entre frequência sexual e bem-estar para de crescer após cerca de uma relação por semana. Isso não cria uma 'meta' para os casais, mas reforça que mais sexo nem sempre traz mais satisfação.
O que é mais importante é o significado que a sexualidade tem para o casal e o ponto central é separar desejo de obrigação.
A diferença de desejo entre parceiros é uma questão comum e pode se tornar fonte de sofrimento. Pesquisas com casais apontam que grandes discrepâncias entre o desejo sexual e a frequência real das relações estão associadas a uma menor satisfação conjugal, mais conflitos e prejuízos na comunicação.
Em uma relação, é possível que os parceiros tenham níveis diferentes de desejo sexual. Um pode querer com mais frequência, enquanto o outro pode estar atravessando uma fase de menor interesse. A interpretação do cenário também pode ser diferente: para um, o sexo pode representar conexão, carinho e a confirmação de que ainda existe desejo. Para o outro, a falta de vontade pode estar relacionada ao cansaço, ao estresse, a questões emocionais, ao próprio corpo ou simplesmente a uma fase diferente da vida. E a confusão aparece quando a ausência de sexo passa a ser interpretada como uma medida de amor.
“Se você me ama, deveria querer transar comigo” é uma lógica que pode transformar a intimidade em uma espécie de teste permanente do relacionamento.
Assim, o sexo passa a ser entendido como uma dívida conjugal — e o desejo é uma das primeiras coisas a desaparecer. Percebe que a questão não está em 'fazer pouco sexo', mas na maneira como cada pessoa interpreta essa ausência? É nesse ponto que a diferença de desejo pode se transformar no que chamo de ciclo do desamor.
Um parceiro sente falta — e cobra. O outro se sente pressionado — e evita. A ausência aumenta a insegurança de quem deseja mais, que volta a cobrar. Quanto maior a pressão, maior tende a ser a dificuldade de sentir desejo espontâneo.
A intimidade, que deveria ser um espaço de encontro, começa a carregar a expectativa de desempenho. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde sexual como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade, destacando a importância de relações sexuais positivas, respeitosas, seguras e livres de coerção e violência.
Sexo por obrigação pode resolver? A resposta é: não
Fazer sexo apenas para evitar uma discussão, agradar o parceiro ou impedir que ele se sinta rejeitado pode até diminuir momentaneamente o conflito — mas não recupera o desejo.
E existe uma diferença importante entre escolher ter uma relação sexual mesmo sem estar inicialmente com muito desejo e sentir-se pressionado ou coagido a fazê-lo.
O desejo pode, em algumas pessoas, surgir durante a aproximação e não necessariamente aparecer espontaneamente antes dela. Mas isso não significa que alguém deva ultrapassar seus próprios limites.
O consentimento precisa existir.
A sexualidade saudável pressupõe que ambos possam dizer “sim”, “não”, “agora não” ou até mudar de ideia sem medo de punição, chantagem ou violência.
E porque o desejo diminui?
A redução do desejo sexual não tem uma única causa.
Estresse, ansiedade, depressão, problemas no relacionamento, alterações hormonais, determinadas doenças, experiências negativas anteriores e alguns medicamentos podem interferir na sexualidade. Além disso, fatores como sono inadequado, alterações relacionadas à gestação e menopausa também têm grande impacto.
Por isso, dizer simplesmente que alguém 'perdeu o interesse no parceiro' pode ser uma conclusão precipitada. Às vezes, a pessoa não perdeu o desejo pelo parceiro — ela perdeu energia, disponibilidade emocional, segurança, conforto ou prazer
Em outras situações, porém, a diminuição do sexo pode revelar conflitos que já estavam presentes na relação.
Por isso, a solução não deveria ser simplesmente convencer quem deseja menos a fazer mais sexo ou exigir que quem deseja mais “se conforme”.
O primeiro passo é conseguir falar sobre o assunto sem transformar a conversa em acusação.
Em vez de: "você nunca quer transar comigo.”
Pode dizer: “Eu sinto falta da nossa intimidade e gostaria de entender o que está acontecendo entre nós”.
A mudança parece pequena, mas tira a conversa do campo da culpa e leva para o campo da compreensão.
Por isso, tratar a falta de sexo apenas como uma questão de “frequência” pode deixar de lado aquilo que realmente está acontecendo.
E se esse diálogo e essa compreensão estão difíceis de acontecer, a terapia sexual ou de casal pode ser indicada — principalmente para evitar que o tema gere sofrimento, conflitos recorrentes ou afastamento entre os parceiros.
O objetivo não é determinar quem está certo ou estabelecer uma quantidade obrigatória de sexo.
É compreender o que está acontecendo com o desejo, com a intimidade e com a relação.
Também é importante investigar questões médicas quando há dor, alterações importantes de desejo ou mudanças repentinas na resposta sexual.
Minha dica é: não deixe o silêncio sobre essa ausência crescer, nem o sexo virar moeda de troca ou obrigação e quando um se sentir rejeitado ou pressionado, acolha e busquem soluções juntos, talvez a cama esteja apenas revelando um problema que precisa ser olhado também fora dela.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “com que frequência um casal deve transar?”, mas “o que está acontecendo entre nós quando deixamos de transar?”