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Patrícia Merlo

Torta de repolho com peixe salgado é um símbolo da Quaresma capixaba

Nem todas as famílias podem arcar com os custos dos ingredientes da torta capixaba, e nesse cenário surge a criatividade popular

Publicado em 07 de Abril de 2025 às 08:00

Publicado em 

07 abr 2025 às 08:00
Patrícia Merlo

Colunista

Patrícia Merlo

Torta capixaba produzida no restaurante Beco do Siri, na Ilha das Caieiras
No Espírito Santo, a Quaresma expressa-se através da icônica torta capixaba Crédito: Vitor Jubini
A Quaresma, tempo de introspecção e penitência, é tradicionalmente marcada pela restrição do consumo de carne vermelha entre os católicos. No Espírito Santo, essa prática adquire um toque singular, expressando-se através da icônica torta capixaba — uma verdadeira celebração à base de frutos do mar, palmito, os clássicos temperos ibéricos: alho, cebola, coentro, azeite, ao que se adiciona ovos em neve e azeitonas, e a cor do urucum - um dos mais importantes símbolo da rica culinária de Vitória e suas franjas.
Porém, nem todas as famílias podem arcar com os altos custos dos ingredientes da tradicional torta capixaba. Nesse cenário, a criatividade popular surge como uma chama que mantém viva a tradição, mas que também se reinventa para acompanhar as realidades econômicas.
A torta de repolho com peixe salgado, temperada e preparada aos moldes da feita com mariscos é um reflexo dessa reinvenção: um prato simples, delicioso e nutritivo, que preserva o espírito da Quaresma sem pesar no bolso.
Essa adaptação da culinária quaresmal reflete a resiliência e a inventividade do povo capixaba. A tradição não é mais uma peça empoeirada de museu, mas um organismo vivo, pulsante, que se adapta e se transforma, acompanhando as mudanças de tempo e necessidade.
A torta de repolho, assim, transcende sua simples condição de prato: ela é um símbolo da habilidade do povo de manter suas tradições, mesmo diante das dificuldades do cotidiano.
No Espírito Santo, a Quaresma é um período de tradição e reinvenção, onde a fé e a criatividade se entrelaçam, criando uma mesa popular que é ao mesmo tempo reflexo e resistência. A torta de repolho é o testemunho dessa união, um prato que celebra o passado e, ao mesmo tempo, afirma a força de um povo capaz de adaptar sua cultura às circunstâncias de cada tempo.

Patrícia Merlo

Doutora em História Social/UFRJ, Professora da UFES, especialista em História da Alimentação.

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