Sair
Assine
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Murilo Góes

Tal como a comida, a fofoca remexe na boca do povo

Aliás, devo dizer que uma pizza marguerita com pesto harmoniza muito bem com fofocas sobre gente caloteira e falida

Publicado em 07 de Junho de 2024 às 07:00

Publicado em 

07 jun 2024 às 07:00
Murilo Góes

Colunista

Murilo Góes

Preciso te contar uma coisa e espero que o assunto fique apenas entre nós. Melhor que vinagre de maçã, a acidez da fofoca é capaz de salvar o tempero de qualquer comida mais ou menos.
Em visita a Montevidéu, por exemplo, lembro de ter sofrido para ruminar (com os ouvidos) um pedaço ressecado de chorizo numa das inúmeras catástrofes reconhecidas como restaurante turístico – mas tudo em razão de uma boa fofoca sobre certa fulana que eu nunca vi (mas já fiquei com vontade de conhecer).
Tal como a comida, a fofoca remexe na boca do povo em todas as culturas e talvez tenha sido uma das primeiras grandes mídias do ser humano depois que aprendeu a fazer café. Um bom barista de fofocas precisa reconhecer a diferença entre degustar um “eu fiquei sabendo” daquele “você não sabe da maior”. Como talvez ainda nenhum fofoqueiro acadêmico tenha se metido a besta, coube a mim a tarefa crônica de explicar esse disse me disse.
A fofoca se diferencia em três grandes grupos de mexericos: no primeiro, temos a fofoca-mandioca, divulgadora de um discurso subterrâneo que precisa ser descascado; essas são as que apresentam melhor estrutura linguística, daquelas que não deixam dúvidas de que estamos anestesiando nossa hipocrisia sobre o imaginário alheio e, entre sussurros, risos e batatas fritas, fofocamos.
Nesse telefone sem fio, o uso da primeira pessoa evoca uma terceira que não será revelada em frases como “ouvi dizer”, “fiquei sabendo”, “dizem que” e “falaram por aí”. Daqui a pouco (me disseram) falante e ouvinte trocam os turnos da enunciação e mais outra rodada é pedida no bar do Lúcio (que, aliás, deixa baixo, soube que foi visto no Morro do Moreno tomando água de coco com uma mulher que não era a Fernanda).
A segunda qualidade de futricagem, a fofoca-milho, participa de muitos pratos à brasileira e, versátil, cai bem a inúmeras ocasiões – por isso é a que particularmente mais me atrai: aquela que serve como ponto de partida para expressarmos o que pensamos que o outro deveria fazer com sua própria vida.
Muitas vezes esse outro ainda nem sabe que a gente existe, embora tenhamos decidido, numa rápida talagada de vinho entre enxeridos, que a cozinheira deveria terminar logo com o dono do restaurante pra ficar de uma vez com a garçonete freelancer dos sábados. Nessa qualidade de fofoca, eu tenho para mim, os tópicos relacionados à vida sexual são os que mais importam.
Na terceira versão de fuxicos está o tipo mais cruel de todas as fofocas – a ultraprocessada: aquela em que o autor manipula os elementos da história para produzir algum tipo ardiloso de vantagem sobre si. Durante a encenação de caras e bocas, a tensão toma conta... ninguém arrisca, nem petisca, muito menos mastiga alguma coisa com prazer legítimo.
O estômago de quem escuta é capaz de capturar o amargor, a amargura e as artificialidades das narrativas. É comum aparecerem injúrias e difamações - mas aí, para mim, a conversa azeda e já fica indigesta. A mesma coisa acontece quando fofocas já finalizadas ressurgem de propósito para gerar algum constrangimento e o garçom trazer a conta.
Da próxima vez que isso acontecer com você, sugiro que volte a falar de sexo e peça uma pizza de quatro queijos. Aliás, devo dizer que uma marguerita com pesto harmoniza muito bem com fofocas sobre gente caloteira e falida, enquanto a de calabresa acebolada é mais apropriada para quem quer falar de algum story curtido pela ex (daquele seu conhecido - se é que você me entende).
Pizza marguerita
Pizza marguerita Crédito: Freepik
Qualquer um pode ser o assunto servido à mesa: a antropofagia da maledicência não perdoa ninguém. Para não deixar o assunto passar do ponto ou a fofoca perder o sabor, tô estudando harmonizações com bolos de diferentes sabores e prometo publicar em breve.
Fofoca à mineira pede broa – mas aí eles chamam o boato de prosa. Enquanto não fermento o futrico, é melhor deixar esse assunto morrer... já não estará mais aqui quem falou, ok?

Murilo Góes

Gastrônomo e pesquisador das culinárias brasileiras que também cozinha umas palavras

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Modelo da nova CIN (Carteira de Identidade Nacional), que vai substituir RG
Cariaca ganha novo posto para tirar a nova Carteira de Identidade
Imagem de destaque
Almoço saudável: 5 receitas com arroz e feijão que fogem do tradicional
Paisagem de montanha em São Roque de Maravilha, distrito de Alfredo Chaves que registrou 8º
Município capixaba dos 40 graus tem onda de frio de até 4 graus

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados