Não é tão comum encontrar séries brasileiras dedicadas aos dramas jurídicos e aos bastidores dos tribunais. Por isso, Habeas Corpus, da Netflix, chega como uma produção bem-vinda ao catálogo nacional. Com oito episódios, a série mistura investigação criminal, tensão judicial e conflitos pessoais em uma história sobre erros da Justiça. E, para quem gosta de desvendar mistérios, é difícil não apertar o botão de próximo episódio. Eu mesma maratonei a produção e terminei tudo em dois dias.
É verdade que tenho um apreço especial por filmes e séries de investigação, mas a presença de Marjorie Estiano no elenco já seria motivo suficiente para despertar interesse na série. Atriz de peso, ela entrega mais uma atuação brilhante, sustentando uma narrativa que exige intensidade emocional e personagens cheios de contradições.
A grande surpresa, porém, foi Any Gabrielly. Mais conhecida por sua trajetória na música, sua atuação como atriz foi digna do protagonismo que dividiu com a Marjorie.
A química entre as duas é um dos grandes trunfos da série. Juntas, elas transitam por diferentes emoções e conseguem transmitir a dor, os dilemas e as contradições de suas personagens. Any tem uma atuação que poderia facilmente conduzir sua personagem para um lugar de antagonismo, caso apostasse em outro tom, mas ela encontra nuances na sua interpretação que impedem uma leitura simplista da personagem.
Em vez de transformar as protagonistas em figuras facilmente classificáveis como mocinhas ou vilãs, a série nos convida a compreender suas motivações e a sentir o peso de suas escolhas.
Mais do que acompanhar investigações e disputas nos tribunais, Habeas Corpus quer discutir o que acontece quando uma pessoa é condenada injustamente. A produção coloca em cena questões como racismo estrutural, desigualdade de classe, violência policial, corrupção e precariedade do sistema judiciário brasileiro.
A série mostra como as estruturas de poder são atravessadas pelas pessoas que as integram e pelas decisões que tomam quando ética, dinheiro, interesses pessoais e ambição entram em conflito.
Os protagonistas, por sua vez, estão longe de serem heróis perfeitos. Na tentativa de corrigir injustiças, eles também ultrapassam limites e precisam lidar com as consequências de suas atitudes. Essa ambiguidade torna a narrativa mais interessante, porque impede que o espectador encontre respostas fáceis para dilemas complexos.
A história é inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil, iniciativa dedicada à revisão de condenações possivelmente injustas. A referência reforça a dimensão social da trama e lembra que, por trás dos processos judiciais, existem vidas que podem ser profundamente transformadas por erros cometidos ao longo de uma investigação ou julgamento.
Visualmente, a fotografia é um espetáculo à parte e contribui para criar a atmosfera de tensão que acompanha a narrativa. A série possui um roteiro fluido, que consegue misturar histórias do passado e do presente sem gerar confusão e sem ficar cansativo.
Nem tudo, porém, funciona com a mesma qualidade. Algumas atuações do elenco secundário são medianas e não alcançam a força das performances de Marjorie Estiano, Any Gabrielly e Vladimir Brichta, este último que também merece menção neste texto por sua atuação digna de aplausos. Além disso, os demais integrantes do grupo têm pouco espaço para se desenvolver.
Li por aí algumas críticas a possíveis inconsistências em relação a aspectos do processo penal brasileiro. É uma observação que merece atenção, especialmente em uma produção que escolhe retratar o funcionamento da Justiça. Ainda assim, é importante considerar a proposta da obra: estamos falando de ficção, não de um documentário ou de uma aula de Direito.
A liberdade criativa faz parte da construção dramática, embora não impeça que especialistas apontem questões que mereçam debate. O desafio está justamente em adaptar temas complexos para o grande público sem perder a credibilidade.
Se a série já consegue manter a atenção ao longo dos episódios, o desfecho eleva a experiência. O plot twist final é uma das grandes surpresas da produção e reorganiza a maneira como enxergamos os acontecimentos anteriores. Sem dar spoilers, é possível dizer que a reviravolta reforça uma das principais questões levantadas pela história: até onde uma pessoa pode ir para conseguir justiça?
Se os dramas jurídicos são uma realidade de sucesso no streaming internacional, nós, fãs do gênero, torcemos para ver cada vez mais nosso país explorando esse tipo de produção. Habeas Corpus representa um passo importante ao colocar os meandros da Justiça brasileira no centro de uma história popular, que prende a atenção do público e é sustentada por boas atuações.
Afinal, os conflitos do nosso sistema judiciário não ficam devendo complexidade aos que vemos nas produções estrangeiras, e merecem ser contados a partir das nossas próprias realidades. Em uma escala de 5 estrelas, Habeas Corpus merece 4,5.