Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Frenesi punitivo levou o Direito Penal a um beco sem saída
Penalidade

Frenesi punitivo levou o Direito Penal a um beco sem saída

Nunca se clamou tanto por penas mais severas, punições exemplares, por mais investigações e processos eficientes

Publicado em 18 de Junho de 2018 às 18:19

Públicado em 

18 jun 2018 às 18:19

Colunista

Cadeia

Raphael Boldt*

O direito penal nunca teve tanto prestígio. O recente caso ocorrido na cidade de Linhares, no qual um homem teria estuprado duas crianças (filho e enteado) e ateado fogo em seus corpos quando ainda estavam vivas, parece comprovar o sucesso não apenas do Direito Penal, mas de todo o sistema de justiça criminal. Nunca se discutiu tanto sobre direito e processo penal no Brasil. Nunca se clamou tanto por penas mais severas, punições exemplares, por mais investigações e processos eficientes. É tudo muito simples: mais crimes, mais processo, mais punição e pronto. Mas a pergunta que muitos não fazem é: qual o fim do Direito Penal?

De modo geral, os penalistas defendem a existência do Direito Penal nas sociedades contemporâneas para proteger determinados bens jurídicos, ou seja, valores relevantes para a existência humana e o convívio social, como a vida, a integridade física, o patrimônio, a sexualidade, a honra, o meio ambiente etc. A proteção penal desses bens depende, em boa medida, da previsão de mecanismos de coerção, neste caso, da pena.

Queremos mais castigos, mas já não acreditamos que a pena seja capaz de prevenir, de ressocializar ou reparar danos

Para além das discussões sobre as reais funções do Direito Penal, o que nos assusta é a ilusão de que esse ramo do direito possa solucionar todos os nossos problemas, dos mais simples aos mais complexos. No Brasil, muitas pessoas realmente acreditam que a criminalização é o único caminho para lidar com todo tipo de mazela social. Essa ilusão tem sido extremamente útil para alguns grupos que se beneficiam do sistema penal. Afinal, o discurso da criminalização rende votos, vende jornais, atua como uma espécie de anestésico que aplaca a dor e, ao mesmo tempo, reduz a sensibilidade.

Sim, um pai que estupra o próprio filho e o enteado e depois mata as crianças de maneira cruel é algo que choca. Ainda não há acusação formal, inexiste processo, mas a condenação parece inquestionável. Mais rigor, mais penas, mais punição. Esse frenesi punitivo conduziu o Direito Penal a um beco sem saída: queremos mais castigos, mas já não acreditamos que a pena seja capaz de prevenir, de ressocializar ou reparar danos. Então, o que resta? Nas palavras de Alejandro Alajia, “o que é a pena?”. Tudo indica que atualmente a única razão para o castigo é o crime.

Criminalizamos a vida e aos poucos o Direito Penal demonstra a sua falta de sentido, assim como a morte daquelas duas crianças. Talvez a sobrecarga do sistema leve ao seu fim, difícil dizer. Mas o que parece certo é que em breve essas vítimas se transformarão apenas em números, dados, estatísticas, assim como provavelmente acontecerá com o autor do fato após ser condenado e servir de objeto para mais um espetáculo. No final das contas, a história se repete.

*O autor é advogado criminalista, doutor e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV

 

{{ndFunctionFirstNotNull(post.original_author.attributes_map.descricao_de_colunista.value,post.original_author.biography)}}

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Ação contra furto de energia
De barbearia a propriedade rural: operação flagra furtos de energia no Sul do ES
Imagem de destaque
Nunes Marques manda Meta entregar relatório sobre 'Exército do Lula' em até 24h
Idoso de 80 anos com alzheimer desaparece em Barra de São Francisco
Idoso de 80 anos com Alzheimer desaparece em Barra de São Francisco

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados

Fale com a gente

Escolha o canal de sua preferência para assinar A Gazeta ou tirar dúvidas.