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Cenário político em mudança

Como perda de protagonismo de Bolsonaro deve impactar esquerda e direita

Cientistas políticos ouvidos por A Gazeta avaliam o que deve mudar e quem deve se fortalecer , com a inelegibilidade do ex-presidente por oito anos

Publicado em 04 de Julho de 2023 às 08:09

Ednalva Andrade

Publicado em 

04 jul 2023 às 08:09
Jair Bolsonaro, ex-presidente da República
Jair Bolsonaro (PL) ficou inelegível após decisão do TSE Crédito: Reprodução
Com Jair Bolsonaro (PL) fora das disputas eleitorais até 2030, devido à decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o declarou inelegível pelo prazo de oito anos na última sexta-feira (30), os apoiadores do ex-presidente da República devem buscar novas lideranças para seguir. Na avaliação dos cientistas políticos João Gualberto e Marta Zorzal, a tendência é que haja um fortalecimento da centro-direita no Brasil e, naturalmente, uma desidratação da extrema-direita, que tinha em Bolsonaro seu maior incentivador.
Gualberto destaca que é preciso aguardar o que ainda vai ocorrer juridicamente, uma vez que Bolsonaro é alvo de uma série de investigações na Justiça e o caso julgado pelo TSE foi apenas o primeiro. Ele acredita que, dependendo do desgaste do ex-presidente, os aliados vão manter afastamento e aproximação calculados, mas não poderão ser detratores e nem defensores dele para evitar problemas com o eleitorado. 
Marta Zorzal, que também é professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), avalia que é preciso entender como o bolsonarismo se fortaleceu nos últimos anos, com base no antipetismo, lavajatismo e na propagação de fake news. Ela diz que somente depois das eleições municipais de 2024 vai haver mais clareza sobre como ficará o cenário político para 2026 e quais serão as apostas para a disputa presidencial, por exemplo.
João Gualberto concorda e acrescenta que, na avaliação dele, Bolsonaro só é cabo eleitoral da extrema-direita e o bolsonarismo perde, nesse momento, os eleitores ligados ao antipetismo, ao lavajatismo e alguns cristãos conservadores, uma vez que o governo federal não fechou igrejas como propagava a campanha do ex-presidente e fortaleceu a economia do país.
“Os políticos que apoiavam Bolsonaro, mas não eram extremistas, vão migrar para o centro. Uma parte dessa fragmentação bolsonarista é captada pela extrema-direita e outra parte importante é captada pela centro-direita”, calcula.
Entre os nomes que podem se fortalecer junto à direita na brecha aberta com a inelegibilidade de Bolsonaro, os dois cientistas políticos citam, primeiro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que foi ministro da Infraestrutura no governo do ex-presidente.
O nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), também é citado pelos dois cientistas políticos como alguém que pode se fortalecer para 2026. No entanto, ambos fazem ponderações sobre os herdeiros do bolsonarismo.
Marta considera difícil o ex-presidente conseguir transferir os seus votos automaticamente para quem ele escolher apoiar e aponta que o herdeiro dos votos do bolsonarismo “pode ser até alguém que ainda não está em evidência” no cenário político nacional.
“Esse futuro vai estar muito dependente de como vai se comportar a própria direita. Há outras pessoas que estão em cargos, como o governador de São Paulo, mas ele ainda está no início da administração. Acho que esse substituto (de Bolsonaro) vai aparecer ainda nesse campo da direita”, pontua a professora da Ufes.
"O Centrão vai aparecer muito mais, tentando puxar esses eleitores. No Brasil, a gente vai encontrar isso muito arraigado, de não ser muito à direita e nem à esquerda."
Marta Zorzal - Cientista política e professora da Ufes
Já Gualberto cita outros nomes que podem herdar votos bolsonaristas, como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), e o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB). Enquanto os demais são aliados do ex-presidente, Renan Filho apoiou a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e é o único dos nomes citados com atuação no Nordeste.
“Esse (Renan Filho) é um quadro importante porque ele fez um bom mandato como governador de Alagoas, é um homem renovado, não repete o mesmo esquema do pai (senador Renan Calheiros), conversa bem com os inimigos dele. Acho que esse cara também está no jogo. Se houver uma articulação entre Eduardo Leite e Renan Filho, é algo importante a se observar”, cogita o cientista político.
"A coalizão que Bolsonaro fez no Brasil não se repetirá. Isso de juntar militares, evangélicos, agronegócio não se repetirá. A coalizão dele desaparece com ele. Ela se fragmenta e vai cacifar várias pessoas."
João Gualberto - Cientista político
Mesmo considerando muito recente a condenação de Bolsonaro para avaliar alguns cenários, a professora da Ufes praticamente descarta a possibilidade de a mulher dele, Michelle Bolsonaro (PL), ser a candidata a presidente com o apoio do grupo que deu suporte ao ex-presidente. Além de ela ser novata na política, conta bastante o fato de o campo da direita e extrema-direita ser “muito misógino e machista”, como Marta Zorzal destaca.
“Ela tem cacife para se eleger deputada, talvez senadora, mas daí a ser candidata a presidente, não acho que o grupo ao qual ela pertence vai fazer esse tipo de concessão. Sou muito cética quanto a isso”, complementa a cientista política.
Já no campo da centro-esquerda, Gualberto e Zorzal concordam com o possível fortalecimento do ministro da Justiça, Flávio Dino (PSB). Eles discordam a respeito do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin (PSB). Enquanto Zorzal acredita que ele pode também ficar mais forte para 2026, Gualberto considera que ele não deve acumular capital político para ser candidato à sucessão de Lula.
“Vejo Flávio Dino e Fernando Haddad (PT), ministro da Fazenda, como os possíveis candidatos da centro-esquerda. Do ministério de Lula deve sair um candidato à sucessão dele, se ele não disputar a reeleição”, conclui o cientista político.

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