Nos últimos dois anos, o cientista político Jairo Nicolau se dedicou a estudar o comportamento do eleitor que votou em Jair Bolsonaro (sem partido) para presidente da República em 2018. Encontrou dois grupos com características diferentes, mas que responderam a um discurso de antipolítica muito forte, reproduzido pelo então candidato à Presidência.
Passada a metade do mandato, Bolsonaro não é mais o mesmo, avalia o cientista. "Está mais silencioso, tem costurado alianças com forças políticas tradicionais. Ele está se tornando um político cada vez mais comum."
Apesar disso, continua sendo bem avaliado – de acordo com a última pesquisa Datafolha, 37% dos entrevistados avaliaram o governo positivamente –, o que lhe daria grande vantagem caso as eleições fossem neste momento.
Para a disputa em 2022, Jairo Nicolau diz não ver nenhum nome natural óbvio à frente das pesquisas para enfrentar o atual presidente e acredita que a reeleição de Bolsonaro vai depender do sucesso do governo, principalmente na área econômica.
Em entrevista para A Gazeta, o cientista político traça um panorama do pleito de 2020 e faz projeções para as próximas eleições presidenciais. Ele também comenta sobre as reformas na área econômica, carro-chefe do ministro Paulo Guedes. Na opinião de Jairo Nicolau, é pouco provável que elas sejam tiradas do papel ainda neste mandato, independentemente de quem sejam os próximos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado.
Confira a entrevista:
Nas eleições de 2020, observamos a derrota do PT nas urnas e também a de candidatos que tentaram levar o nome de Bolsonaro. Por outro lado, vimos o fortalecimento de partidos de centro e de direita, que tinham perdido força política há alguns anos. O que esses resultados apontam?
Eu salientaria um retorno a uma vida mais normal. A maior lição que a gente tira, na minha visão como analista, é que essa eleição mostrou um Brasil mais trivial, mais comum, sem solavancos, sem as excepcionalidades de 2016 e 2018, quando tivemos muitas surpresas. Havia uma insatisfação com a política tradicional, com os partidos que vinham sendo centrais na política brasileira desde a democratização. Não vou dizer que a antipolítica acabou, mas em 2020 isso apareceu com menos força. Tanto é que várias pessoas que tentaram repetir o fenômeno Bolsonaro não foram bem-sucedidas nas urnas. Essa foi uma eleição da política como a gente sempre entendeu, de partidos com boa reputação, que estão na pista há alguns anos. Mesmo os jovens que apareceram como candidatos, e eu citaria Boulos, Manuela D'Ávila, Marília Arraes, João Campos, todos são políticos que não fazem esse figurino, eles têm vínculos com os partidos, gostam da atividade partidária, não são antipolíticos.
E que impacto isso deve ter nas eleições em 2022? Podemos esperar uma eleição menos ideológica ou a polarização de 2018 se mantém?
A natureza da disputa será outra. Em 2018, a eleição foi uma continuidade de uma polarização do PT e do PSDB, que vinha já havia alguns anos, e ganhou outro componente, de um partido que radicalizou com posições mais extremistas, de contraponto ao PT. Se nós tivermos uma nova disputa de Bolsonaro e PT, talvez alguns desses fantasmas de 2018 reapareçam com certa força, o antipetismo, por exemplo. O que muda é que as eleições de 2022 vão ser sobre quem vai com Bolsonaro para o segundo turno, talvez o tema seja Bolsonaro versus alguém, que inclusive pode não ser a esquerda, está em aberto. Pode vir uma liderança de centro, de uma coalização de partidos, que tenha condições de disputar. Mas não deve ser uma disputa ideológica, com tanta polarização.
"Não vou dizer que a antipolítica acabou, mas em 2020 isso apareceu com menos força"
O senhor falou sobre uma coalização de centro. Consegue ver outras forças políticas surgirem para enfrentar Bolsonaro em 2022?
O centro não deixou de ter uma força. O PSDB, enquanto partido hegemônico contra o PT, sempre ocupou um pouco esse lugar, de partido pivô, central, de agregar pequenos partidos em torno dele, até mesmo do Centrão. Mas em 2018 esse centro-direita naufragou, essa aliança foi muito bem costurada, mas em torno de um nome errado. Alguns candidatos tentaram ocupar, só que tiveram votações pífias, foi um fracasso. A coalização pode se repetir, quem encabeça, quem é o nome capaz de unir essas forças e que tem um apelo eleitoral, a gente ainda não sabe. Porque, como vimos em 2018, não adianta colocar o nome de um candidato que se imponha, mas não tem nenhum apelo eleitoral. Foi o que aconteceu com o Alckmin.
Nesse campo, temos visto surgir articulações que citam nomes como Luciano Huck e João Doria. Como o senhor avalia esse movimento? Acredita que é capaz de fazer frente aos polos que estão colocados hoje?
Essa articulação de centro-direita, de uma direita não bolsonarista, que está em busca de um nome, não é de agora. Ela vem lá de 2018, quando o PSDB não conseguiu emplacar o Alckmin. Hoje, não vejo nenhum nome natural óbvio que se imponha à frente nas pesquisas para enfrentar Bolsonaro. Até 2022, o jogo vai ser um pouco a dança das cadeiras, que a gente brincava quando criança. Senta um, levanta, senta outro, vai eliminando até achar um vencedor. A gente tem ouvido falar de alguns nomes aí, como Rodrigo Maia, que tem hoje um papel mais importante do que vai ter no ano que vem, então certamente vai perder prestigio. Tem o Doria, que, talvez com essa vacina, se projete nacionalmente. O Luciano Huck, que ainda é de muita incerteza, entusiasma menos os políticos tradicionais. Então, esse fenômeno de dança das cadeiras já está acontecendo e vai acontecer até 2022, mas não é tão explícito. Ele vai se dando por essas interações, por esse jogo da política, que alguns se destacam mais em algum momento. A política é feita de momentos. Pode ser que ninguém consiga se impor e o centro saia com dois candidatos, não é o ideal. Mas vamos ter que esperar para ver como essas articulações se dão. Os desafios são de todos os lados, o único ator que parece estar solitário, esperando os seus adversários, é o Bolsonaro.
"Hoje, não vejo nenhum nome natural óbvio que se imponha à frente nas pesquisas para enfrentar Bolsonaro"
E quanto à esquerda?
Há muita dúvida a respeito do PT, da esquerda não petista, do PSOL, PDT, PCdoB, PV, partidos que se afastaram do PT, e a gente não sabe ainda o que eles vão fazer, se vão tentar uma coligação. O PT parece estar um pouco isolado neste momento. E o sentimento antipetista pode voltar em 2022 em uma nova polarização contra Bolsonaro, caso tenha um candidato que vá para o segundo turno. Mas a esquerda tem que pensar na sobrevivência política com recurso público, porque tem muitos partidos pequenos com dificuldade de crescer, como é o caso do PCdoB. Já o PT é uma máquina. É um partido que não perde a dominância na esquerda, é a grande força, não tem discussão. Em termos partidários, vejo o PT soberano, mas em temos eleitorais, a gente ainda não sabe. Não sei se teremos uma fusão ou um união dessas forças em 2022. O ideal, do ponto de vista do enfrentamento político em 2022, é ter, no máximo, um candidato de esquerda e um de centro para enfrentar Bolsonaro.
O senhor é autor do livro "O Brasil dobrou à direita", que analisa o comportamento do eleitor que levou Bolsonaro à presidência em 2018. É possível ter uma ideia de como esse eleitor vai agir em 2022?
No meu livro, eu analisei o eleitor do Bolsonaro em dois grupos: o eleitor fixo e fiel, que vai com ele até o fim, que vai dar a ele uma base muito boa para garantir um segundo turno em 2022, e aquele mais comum, menos ideológico, que se empolgou com a candidatura do Bolsonaro em 2018. Esse segundo tipo de eleitor não o avalia tão bem agora, ele esperava mais eficiência na economia e está um pouco frustrado, mas vai aguardar para avaliar o desempenho do governo em 2022. Ele vai analisar a economia, o desenlace dessa crise sanitária, o plano de vacinação. É um eleitor pragmático, que vai responder muito à conjuntura. O comportamento dele em 2022 vai depender de como termina o governo, se bem ou batendo cabeça.
"O comportamento dele [do eleitor comum] em 2022 vai depender de como termina o governo, se bem ou batendo a cabeça
"
E senhor acredita que esse discurso que elegeu Bolsonaro vai se perpetuar por muito tempo?
Bolsonaro não é mais o personagem que ele criou. Ele fez uma campanha cultivando o radicalismo, viu que era apropriado. Mas agora ele é um político que está governando e que, em 2022, terá quatro anos de gestão para defender. O discurso contra a Venezuela, contra a corrupção, que ele usou em 2018, não cabe mais. Ele continua um conservador, mas está mais silencioso, tem costurado alianças com forças políticas tradicionais, ele está se tornando um político cada vez mais comum, se afastando do discurso de antipolítica para tentar a reeleição. Ele não é mais novidade, hoje é outro Bolsonaro.
As pesquisas mostram que a aprovação dele cresceu em meio à crise sanitária e que boa parte da população não o vê como o responsável pela situação que temos no país. Acredita que o presidente tem forças para uma reeleição em 2022?
O sucesso dele está muito associado à velocidade de recuperação econômica, sem isso é difícil. Com uma economia em crise, que pode piorar em 2021, ele entusiasma pouco. Se continuar assim até 2022, Bolsonaro chega mais vulnerável e a oposição melhor. Mas ele também chega com uma vantagem, com visibilidade de ter estado em destaque durante quatro anos, fazendo campanha. E para quebrar essa vantagem ele precisa estar mal avaliado. Todos os últimos presidentes que tiveram uma avaliação de média para alta e tentaram reeleição foram bem-sucedidos. Não é fácil para a oposição, é uma eleição dificílima. Acredito que se a oposição não sair com o mínimo de candidatos no primeiro turno, sobretudo tentando fazer alianças, a chance de ganhar de Bolsonaro é pequena.
"Ele [Bolsonaro] está se tornando um candidato cada vez mais comum, se afastando do discurso de antipolítica para tentar a reeleição"
As reformas tributárias e administrativas, que eram um carro-chefe do Ministério da Economia no governo Bolsonaro, ainda não foram votadas. O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que elas saem do papel em 2021. O senhor acredita que há ambiente para isso?
Ambiente tem, mas acho improvável sair durante este mandato. O Bolsonaro não quer. A reforma administrativa esbarra sempre nas preferências do presidente. Fazer uma reforma como a que ele defende, para novos funcionários, que vão entrar em 2022, com uma nova estrutura de carreira, não tem nenhum impacto no dia a dia da economia agora, apenas faz uma sinalização para o mercado, de que o país está fazendo reforma. Talvez, por isso, essas reformas são sempre adiadas. Eu acho que fica para o próximo mandato, não há tanto interesse do presidente mais. E quanto mais próximo de uma eleição, menos provável uma reforma.
A respeito das disputas pela presidência na Câmara dos Deputados e no Senado, a eleição de um aliado do presidente pode dar mais força ao governo?
Não vejo uma ligação tão forte. Maia, por exemplo, apoiou Bolsonaro no segundo turno, esteve favorável a ele, entrou como um aliado. O DEM está no governo, tem ministros de Estado. Se Maia pudesse não ter entrado em conflito com o presidente, com o Guedes, ele preferiria. Ele pilotou, com muita eficiência, a Reforma da Previdência, mas ele não boicotou o governo, não aceitou nenhum pedido de impeachment, não foi um Eduardo Cunha [ex-presidente da Câmara durante o mandato de Dilma Rousseff e responsável por aceitar o processo de impeachment contra ela]. O Congresso tem agido com certa autonomia, a gente vê muito mais rusgas de declarações para a imprensa do que de se fazer algo, de fato. É claro que um político mais alinhado pode facilitar a tramitação de processos, dar menos dor de cabeça, mas não acho que seja determinante para ajudar Bolsonaro. Os nomes que até agora estão postos são ou de candidatos alinhados a ele ou com uma certa independência. Não tem uma oposição, não tem um Cunha ali.
"Os próprios líderes partidários já perceberam que a era dos partidos pequenos acabou e que eles precisam se reorganizar"
Esta foi a primeira eleição com o fim das coligações para cargos proporcionais (no caso, eleição de vereadores). Houve uma redução da fragmentação de partidos nas Câmaras municipais no geral. O que esperar dos partidos para 2022?
A gente chegou a um grau de fragmentação que se tornou ininteligível o que os partidos representam. Isso dificulta desde a formação de um Ministério mais compacto, com uma Câmara dos Deputados mais difícil de manejar, a um eleitor que não consegue perceber a diferença de partidos. O resultado do fim das coligações nas eleições de 2020 mostram que estamos em um bom caminho e devemos assistir a dois processos a partir de agora. Primeiro, o de políticos grandes, donos dos partidos, se procurando para se fundir, para ter tempo de TV, dinheiro. Mas se isso não acontecer por cima, aí vamos ver o segundo processo acontecer, que vem de baixo, dos próprios políticos que querem fazer carreira migrando para grandes partidos. Eu acho que isso acontece pela iniciativa dos próprios líderes partidários, vem de cima, porque eles já perceberam que a era dos partidos pequenos acabou e eles precisam se reorganizar. E aí vamos assistir à compactação de grupos partidários.