Vinte e nove dias após Cheslley de Oliveira Trabach, de 20 anos, ser morto a tiros em um suposto confronto com policiais militares, no bairro Vila Independência, em Cariacica, o caso continua cercado de versões contraditórias. Enquanto a Polícia Militar afirma que o rapaz trocou tiros com a guarnição que fazia patrulha na região, os familiares do jovem acreditam que o caso se trata de uma execução.
E o desafio de reconstruir os últimos passos do jovem e chegar ao que realmente aconteceu está a cargo da Polícia Civil. Na últimas semanas, pelo menos cinco testemunhas foram ouvidas no Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Entre os depoimentos, estava o primo e a namorada de Cheslley, que foram os últimos a verem o rapaz com vida.
Cheslley foi morto por volta das 8h30, do dia 7 de maio de 2019. A PM afirma que os policiais que patrulhavam a região foram surpreendidos por dois indivíduos em uma moto, que dispararam contra a guarnição. A PM diz ter revidado, acertando três tiros em Cheslley. Ainda segundo a corporação, o jovem estava com um revólver calibre 38, com cinco munições.
De acordo a PM, os militares socorreram Cheslley e o levaram ao Pronto Atendimento de Alto Lage, mas ele acabou morrendo. Revoltados com o acontecimento, moradores e comerciantes do bairro Mucuri, vizinho de Vila Independência, realizaram um protesto na Rodovia do Contorno. Na ocasião, manifestantes atearam fogo em pneus e bloquearam os dois sentidos das via para impedir a passagem de motoristas.
VÍDEO
ÚLTIMOS PASSOS
De acordo com a namorada de Cheslley, uma jovem de 18 anos, os dois passaram a noite juntos na casa dela, em Vila Independência. O jovem acordou antes da namorada, pela manhã, e saiu da casa dela de moto. Depois, ele seguiu para um posto de combustível, na entrada do bairro. No local, ele encontrou um primo, por volta de 7h20.
Em depoimento, o primo contou que estava no posto, também em uma moto. Os dois conversaram por alguns minutos e seguiram juntos em direção ao trabalho do primo, no bairro Santo Antônio, ainda em Cariacica. Perguntado em depoimento porque Cheslley o acompanhou, a testemunha afirmou não saber o motivo, mas disse que os dois foram juntos, cada um em uma moto, até o trevo de Santana, na BR 101. Ele conta que a partir daquele ponto os dois se separaram. O primo seguiu para o trabalho e Cheslley seguiu outro destino.
O comerciante Welton de Jesus Tabach, 39 anos, pai do jovem morto, contou que o filho era apaixonado por motos desde muito novo e gostava de andar pelos bairros da região. "Acredito que ele acompanhou o primo só para andar de moto mesmo. Ele amava isso. Tanto que nos dias anteriores a morte dele eu prometi que iria pagar a carteira da habilitação dele e comprar uma motocicleta mais nova. Mas não deu tempo. São vários sonhos que viraram nada", lamentou.
ENTENDA AS DIVERGÊNCIAS
Comparsa
Polícia Militar: De acordo com a PM, a ocorrência teve início quando policiais faziam patrulhamento no bairro Santana, em Cariacica, e viram dois suspeitos em uma moto. Os militares afirmam, ainda, que o garupa estava com uma arma nas mãos.
Os militares completam que ao verem a viatura, os suspeitos fugiram no sentido da rodovia José Sette. Os policiais foram atrás, em perseguição, e avisaram por rádio para que outras viaturas fizessem um cerco aos motoqueiros.
Os PMs afirmam que os suspeitos entraram em Vila Independência e, ao passarem pela rua Santana, desceram da moto e atiraram contra os militares, que revidaram. Ainda segundo os policiais, o garupa fugiu por um matagal, enquanto Cheslley caiu baleado, próximo a moto.
Moradores e família: Moradores da região afirmam que viram Cheslley andando de moto pelo bairro segundos antes dele ser morto. De acordo com as testemunhas, em todo momento ele estava sozinho na motocicleta.
O primo de Cheslley, um dos últimos ao ver o rapaz com vida, também contou que viu o jovem sozinho na moto. Cerca de uma hora antes do crime, ele passou com a motocicleta pelo trevo de Santana, na BR 101.
Já Welton afirma que a rua Santana, onde o filho caiu morto, é residencial e não há local de mata, como descrito pelos policiais como rota de fuga do suposto comparsa de Cheslley. "Que comparsa é esse que ninguém viu? Como que mataram meu filho com três tiros e deixaram o cúmplice escapar?", indaga.
Polícia Civil: A reportagem teve acesso a parte do inquérito do caso, onde há um print de imagens de um circuito de videomonitoramento. Segundo os investigadores, a distância e o ângulo das imagens prejudicaram o registro do caso. Porém, é possível ver o capacete de Cheslley quando ele descia a rua. Segundo o inquérito, "é possível ver apenas um capacete em movimento".
Cor das camisas
Polícia Militar: De acordo com o depoimento dos policiais militares, o piloto estava com camisa branca e o garupa com camisa preta. Cheslley seria o suspeito de camisa branca. Os PMs afirmam que o comparsa, de camisa preta, estava com uma arma nas mãos, atirou contra os policiais e conseguiu fugir.
Família e testemunhas: Segundo os familiares, Cheslley foi visto pela última vez com uma camisa azul, estampada. Nenhuma outra peça de roupa foi encontrada próxima ao corpo.
Prestação de socorro
Polícia Militar: Os militares contaram em depoimento que levaram o jovem ainda com vida ao Pronto Atendimento de Alto Lage. No local foi constatado que ele estava morto, com dois tiros na região do tórax e um no braço. As imagens gravadas por moradores mostram que o rapaz é colocado pelos PMs no compartimento dos presos.
Familiares e Moradores: Um vídeo gravado por um morador mostra o momento em que Cheslley é colocado, baleado, dentro de uma viatura da PM. Enquanto os policiais carregam o corpo do jovem desacordado, moradores gritavam que ele era trabalhador e já estava morto.
Polícia Militar: Indagado sobre a versão de moradores, de que Cheslley estava morto quando foi colocado na viatura, o Tenente Sanderlei, relações públicas do 7º Batalhão da Polícia Militar (Cariacica), disse que apenas exames poderão confirmar isso. Perguntado se é comum que PMs socorram baleados, ele respondeu que sim. “Nesse caso, em virtude do ferimento ser proveniente de disparo de arma de fogo e da possibilidade real do óbito antes da chegada da equipe do Samu, houve a opção por parte dos policiais em socorrer o baleado. Faz parte do procedimento”, disse.
Revólver calibre 38
Polícia Militar: Segundo os policiais, após ser baleado, Cheslley caiu próximo a moto com um revólver calibre 38, com uma cápsula deflagrada e quatro intactas. A arma e as cápsulas foram entregues à Polícia Civil.
Família e testemunhas: O pai de Cheslley afirma que tinha uma relação próxima com o jovem e que saberia caso ele tivesse uma arma. “Meu filho nunca teve arma. Ele estava sempre fazendo um trabalho de forma honesta, banhando e vendendo cordões, entregando lanche, me ajudando no bar... Várias pessoas estavam filmando a cena do crime e em nenhum momento viram uma arma com o meu filho, nem perto dele, nem perto da moto. De onde surgiu esse revólver? Mesmo se estivesse na cintura, iria cair da forma como carregaram e jogaram meu filho no camburão”, disse.
Pólvora nas mãos
Polícia Civil: Por nota, a PC divulgou, na época do crime, que “foi realizado o exame residuográfico do suspeito, que deu positivo, ou seja havia pólvora nas mãos do suspeito". De acordo com uma fonte da Polícia Civil, o laudo aponta que a pólvora estava na mão direita de Cheslley.
Advogada da família: Para a advogada Gizelly Bicalho, não faz sentido que Cheslley atirasse com a mão direita enquanto dirigia porque ele era canhoto. "O Cheslley nunca teve envolvimento com a criminalidade, não tinha armas e tem o histórico de ser uma pessoa que estava sempre trabalhando em vários lugares, de forma honesta. Como ele atiraria com a mão direita se ele era canhoto? Uma perícia na assinatura dele pode mostrar isso. A letra, inclinada para esquerda, é comum em pessoas canhotas".