> >
Soldados na guerra contra o coronavírus sofrem discriminação no ES

Soldados na guerra contra o coronavírus sofrem discriminação no ES

Em meio à pandemia, profissionais da saúde tem sido hostilizados. Eles contam que já foram agredidos em terminais de ônibus e dentro dos coletivos e proibidos de usar o elevador social

Publicado em 9 de maio de 2020 às 17:19

Ícone - Tempo de Leitura 0min de leitura
Serra - ES - Hospital Dório Silva
Serra - ES - Hospital Dório Silva. (Vitor Jubini)

Há um sentimento que acompanha a maioria dos profissionais de saúde que atuam em hospitais, unidades de bairro, clínicas e consultórios: o medo. A preocupação com a contaminação pessoal pelo novo coronavírus só é suplantada pelo temor de transmitir a doença para outra pessoa.

“É muito triste você saber que um familiar ou um amigo está com Covid-19 e que foi você quem transmitiu. Isso já aconteceu com uma colega, que contaminou a mãe e ela foi parar na UTI. É difícil até falar no assunto”, relata, emocionada, uma técnica de enfermagem que preferiu não ser identificada. 

O problema é acentuado pelo fato de não se saber como cada organismo reage ao vírus. “Há pessoas que ficam assintomáticas, outras em estado desesperador, debilitados, acabam morrendo”, diz. Há sete anos na profissão e atuando em um setor que cuida de pacientes com o novo coronavírus, ela viu a rotina mudar por completo. “Passamos dez horas paramentadas em cada plantão. Temos que usar o uniforme, um jaleco de mangas compridas, um capote descartável por cima, além de máscara, toca, viseira e luva. Às vezes, a sensação é de sufocamento, de fadiga.”

E são nesses momentos que é preciso ter equilíbrio. “Às vezes você quer respirar um pouco, mas o maior risco que corremos é na hora de tirar a roupa, porque está contaminada. E é nessa hora, quando o cansaço bate, que um pequeno vacilo pode acontecer e você se contaminar. É preciso ter muita calma e equilíbrio”, explica a profissional.

Serra - ES - Hospital Jayme Santos Neves
Serra - ES - Hospital Jayme Santos Neves. (Vitor Jubini)

Mas ela não pensa em pedir afastamento. “É a minha área. A pessoa está ali, precisando de cuidados, não posso virar as costas. Se eu não for, não terá outro. Muitos funcionários estão se afastando por terem sido contaminados e quem pode, precisa ficar”, pondera.

Como o órgão mais afetado nos pacientes de Covid-19 é o pulmão, eles dependem de muita ajuda quando estão internados. “Alguns conseguem andar, até tomar banho. Outros se cansam rápido, precisam de ajuda até para tomar água. Temos que dar banho na cama, alimentar, conversar, animá-los. Não é fácil”, desabafa.

Outro drama vivido pelos profissionais é o preconceito ao andarem na rua com o uniforme e, especialmente, quando entram nos ônibus na volta para casa. “Ninguém senta do seu lado. É muito difícil enfrentar isso quando deixamos os plantões”, conta outra técnica de enfermagem. Há ainda casos de profissionais que foram impedidos de usar o elevador social.

DEPOIMENTOS DE ALGUNS PROFISSIONAIS

A pedidos dos profissionais, seus nomes serão preservados. São enfermeiros e técnicos de enfermagem que atuam na Grande Vitória.

"JÁ OUVI MUITAS PALAVRAS AGRESSIVAS"

"Tenho muito medo de transmitir o vírus para a minha família ou conhecidos. Moro sozinho e tenho evitado o contato com as pessoas. Saio dos plantões e procuro ficar o tempo inteiro em casa. Mas isso não me livra do preconceito das pessoas. Já ouvi muitas palavras agressivas: ‘Não quero ver você. Você é um risco. Vai nos contaminar.’ Só não é pior porque vou trabalhar de carro e, para evitar conflitos, evito sair na rua com minha roupa branca. Mas tenho adotado todos os cuidados. Quando termina o plantão, tomo banho, coloco a roupa que usei dentro de um saco plástico amarrado, que vai para o porta-malas. Na porta de casa, tiro o calçado e tudo vai para o tanque ser lavado." 

"NÃO POSSO ME AFASTAR, MAS TEMO PELA MINHA FAMÍLIA

"Sou casada e meu marido é diabético. Não tenho como sair de casa (morar fora temporariamente), ir para outro local, porque preciso cuidar dos meus filhos. A preocupação é constante. Tenho uma amiga que contaminou a mãe idosa, que ficou muito mal. Gostaria de me afastar, mas não tenho escolha. Tenho vários colegas que já foram contaminados. O caminho é manter a fé e tomar todos os cuidados. O difícil é enfrentar o preconceito ao final de um plantão. As pessoas ficam distantes, não querem sentar ao seu lado. Tenho uma colega que mora em um prédio e chegaram a pedir para ela se mudar. Outra estava em um ônibus lotado e ninguém sentou ao lado dela. Tem sido muito difícil." 

"O MAIS DIFÍCIL É VIVER SEM A MINHA FAMÍLIA"

"Trabalho em um local onde o nível de contaminação é elevado. Por maior que seja o cuidado que adoto, a possibilidade de contaminação é grande. O mais difícil é ficar sem ver a minha família, principalmente a minha mãe. Às vezes passo pela rua da casa dela, fico do outro lado, dentro do carro, e peço para ela ir até o portão, só para nos vermos. Tento manter o equilíbrio. Tenho colegas que se desesperam quando chegam ao plantão e sabem que vão enfrentar 12 horas de trabalho. É visível nos olhos o medo. Não tem sido fácil." 

"MUITOS COLEGAS NÃO AGUENTAM E PEDEM DEMISSÃO"

Este vídeo pode te interessar

"Estou isolada em casa, num quarto, separada do restante da família. Não quero correr o risco de contaminá-los. Vários colegas estão fazendo o mesmo. Um deles mandou até os filhos para a casa dos pais. É difícil também a família aceitar o seu isolamento. Querem te ver, conversar com você. Também tenho medo de me contaminar, não sei como meu organismo vai reagir, se vou morrer. Você vai trabalhar, procura dar a maior atenção aos pacientes, mas aquele pode ser o seu último plantão. Muitos colegas não aguentam e pedem demissão."

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais