Com o registro de mais de 27 mil mortos no Brasil, a pandemia do novo coronavírus é um desafio para a saúde física, mental e social. O medo da doença e as práticas de isolamento e distanciamento trouxeram uma leva de conflitos internos, como descreve o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (Usp), Christian Dunker.
“Vivemos nossos afetos pela via do contato e isso se tornou fonte de um certo risco. Estamos em anestesia, que se mostra em indiferença. O aumento do consumo drogas lícitas (álcool e medicamentos) e ilícitas visam reduzir a ansiedade e os conflitos. É uma alquimia que as pessoas inventaram para se aguentar”, explica.
Em abril, ele lançou o livro “A Arte da Quarentena para Principiantes” ao reunir ensaios escritos sobre as formas de sofrimento, luto, negação e diversas facetas provocadas pela disseminação do vírus.
Em uma conversa com A Gazeta, Dunker descreve essas sequelas em cada faixa etária e as peculiaridades para a vida dos casais. O professor sobre os prejuízos que a ausência de interação social pode provocar caso não saibamos lidar com ela. “Se não transformarmos esse sofrimento em solidariedade é provável que as sequelas durem mais tempo”, pontuou.
O que estamos vivendo nos causa medo?
Sim, mas o medo é só um terço do que sentimos, é o medo da contaminação. Outro terço é angústia que representa nossos fantasmas e inseguranças básicas, que já estava conosco antes da pandemia. E outra terça parte do sofrimento que estamos vivendo tem estrutura de luto por perda de pessoas, de projetos que tínhamos para nossa vida, da possibilidade de ir e vir e perda de empregos para muitas pessoas. Vivemos o conjunto massivo de perdas, medos e angústias.
É igual para todos viver essa situação?
As pessoas vão viver e sofrer de modo diferente. Considerando os recursos para fazer frente a disso, tanto recursos - uma casa com mais espaço, por exemplo - quanto recursos subjetivos, quem está mais acostumada a lidar com frustrações e enfrentar seus demônios, ou menos.
A faixa etária que estamos influencia no modo de passar por essa quarentena?
Sim, pois o cotidiano tem uma função diferente do que para o idoso, jovem, adulto ou a criança. Para pessoas da terceira idade, o cotidiano é a marcação de uma segurança de continuidade, por isso a importância às pequenas viagens cotidianas, como ir ao banco ou à padaria. Esses pontos futuros de ‘o que tenho para fazer agora?’ são organizativos para a terceira idade. Há resistência quando tira-se isso.
E para as crianças e adolescentes?
A desorganização da rotina para uma criança pequena terá outro feitio de sofrimento. Elas estão sendo privadas do contato com crianças da mesma idade. Colocá-las no mundo de adultos em uma casa fechada é um prejuízo para o desenvolvimento das crianças.
Já os jovens estão em um momento de vida que demanda independência e distância ao que é familiar. Eles estão sendo constrangido a ficar em casa e a ouvir discursos, ajuizamentos, críticas e conflitos, sendo que ficar fora de casa era um tratamento para essas questões. Agora, ele está exposto a um confronto com pais e irmãos que tende a deixar as problemáticas mais graves
"Os conflitos se tornaram mais agudos e há uma irritabilidade que toma conta das pessoas, muitas vezes aquele distanciamento redutor de conflitos não está posto, então a irritação pode evoluir para agressividade. "
Os relacionamentos amorosos também sentiram a quarentena?
É uma verdadeira cruzada para que os casais consigam se suportar. As suas experiências vão ficar mais fortes. Por outro lado, nossos recursos para tratar os conflitos tentem a diminuir. Para a vida dos casais tem sido um tudo e nada, tando que em Wuhan - cidade chinesa que o coronavírus começou a se espalhar - temos registros de dois efeitos: o aumento de novas gravidezes e também de separações. É redescobrir quem está contigo ou descobrir ela se tornou outra pessoa. Os afazeres da vida cotidiana acaba encobrindo um pouco nossas análises de nós mesmo e das nossas principais relações.
É época boa para pensar, examinar, lembrar e analisar, mas quanto a decidir é melhor esperar. Tolerância consigo e depois com os outros virou a palavra-chave. Os conflitos se tornaram mais agudos e há uma irritabilidade que toma conta das pessoas, muitas vezes aquele distanciamento redutor de conflitos não está posto, então a irritação pode evoluir para agressividade.
Já ausência de interação social física pode trazer danos?
O brasileiro, culturalmente, vive os afetos pela via do toque, abraço, aperto de mão, de encostar no ombro do outro, e isso tudo se tornou perigoso, pois é fonte de risco. A ausência do afeto das pessoas é depressivo e altera nossa relação libidinal com o próprio corpo. Isso promove uma anestesia que se mostra em uma indiferença, os dias passam e é tudo igual.
Para isso o álcool, remédios e drogas se tornaram fugas?
O aumento do consumo dessas substâncias visam reduzir a ansiedade e os conflitos. É a alquimia que as pessoas inventaram para se aguentar. Isso tem levado a estado de confusão e desorientação provocada pela falta de contato com o outro. O contato com o outro é um espelho orientador, pois diz ‘passou do limite’, ‘errou’, ‘volte e conserte’. Ao compartilhar corporeidade você tomar ciência dos seus afetos. E estamos privados, fato que traz irritabilidade e anestesiamento.
Vale interação via telas de computadores e telefone?
Pessoas que não conseguem suportar o vazio que essa situação está criando pode acabar usando as telas para ter alguma coisa para se ocupar. No começo vai ser regulador de ansiedade e, ao longo do tempo, será indutor. Se o uso de telas é contínuo é provável que passam a ser fontes de mais ansiedade
Por quanto tempo teremos os reflexos dessa pandemia na saúde mental?
Pesquisa publicada em revistas de ciências no mundo mostram que em outras quarentenas muito mais breves, de até 21 dias como de ebola e outras gripes, os feitos de depressão e estresse pós-traumático chegam a três anos. Teremos pessoas sequeladas, com medo de aglomeração, medo do outro, aumento de hipocondria, tudo como efeito do maltrato com o período de pandemia.
Quanto pior lidarmos com a quarentena, pior sairemos. Não devia olhar para esse período como algo imposto e viver passivamente. Se não transformarmos esse sofrimento em solidariedade ativa é provável que as sequelas durem mais tempo e que sejam mais intensas.
Como, então, passar melhor este momento?
É um grande desafio manter o equilíbrio e a produtividade numa situação prolongada de transformação do cotidiano, de sacrifício e de contrariedade. Por um motivo ou outro, alguma loucura virá.
Se você se abre para uma tolerância, uma investigação dos conflitos, um reencontro e reinvenção de uma intimidade é possível que essa janela da Covid-19 crie experiências interessantes. Mas para isso vai ser preciso um trabalho psíquico. Alguns precisam de ajuda, aí entra a psicoterapia online, grupos de escuta, contatos de amigos e pessoas de confiança.
Recomendamos que mantenham um tempo de solidão que pode ser criativo, de solitude, exercícios de leitura, pequenas arrumações da casa que produzam memória, que façam com que a vida possa ser repensada. Se só pensar nas contrariedades e negações que a situação coloca é possível que seu sofrimento aumente e evolua para sintomas bem configurados de depressão, ansiedade e pânico.
O medo é o que faz que muitas pessoas neguem a existência e os danos da Covid-19?
Negação acontece quando o indivíduo está diante de um conflito com nossos desejos e que exigiria uma transformação grande com nossa percepção de realidade. A resposta mais simples e primitiva é negar a existência desse conflito. Vemos isso acontecendo aqui no Brasil. Primeiro a negação da realidade, depois o agrupamento para negar em conjunto e depois desrespeitando fartamente a quarentena em nome dessa negação.
Todos estamos com uma voz dentro de nós dizendo ‘vamos furar o bloqueio’ e a razão diz ‘fique em casa’. Isso é normal e faz parte de qualquer conflito. O que não faz parte são autoridades simbólicas iniciando essa voz da negação e aproveitando-se das pessoas para produzir esse processo psicológico da denegação.
"Texto da citação"
Os sentimentos deste momento estão mais intensos?
Enquanto sociedade nos dividimos numa polarização de amores, muito intensos e idealizados, e ódios, igualmente intensos e instrumentalizados. O subproduto disso foi um incremento narcísico muito forte.
Antes da pandemia já estávamos em um nível de, expectativa sobre si e de controlabilidade sobre o mundo muito além do razoável. A Covid-19 está mostrando que não controlávamos tão bem as coisas, por isso o ego está passando por uma dieta radical.
Você não controla tanto assim, mandam ficar em casa, vem o organismo do tamanho de um vírus e leva entes queridos e você fica com medo disso. Isso está produzindo uma espécie de modificação na polarização entre amores e ódios. Nesse sentido, o coronavírus trouxe uma boa nova baseada na humildade, na aceitação de limites e de contrariedades que vai fazer nos ajustar um pouco às nossas pretensões de governos de si e do mundo.
E o luto?
Essas mortes geram um luto diferente, mais complicado e mais longo, pois os ritos estão sendo abreviados, está havendo uma coletivização grande. E não se faz o luto em massa, se faz um por um e o reconhecimento que cada vida é insubstituível, que cada vida precisa se integrar simbolicamente a uma história e não podemos fazer contabilidade de mortes. O luto individual também se dissolve em um luto coletivo e isso o Brasil não tem feito bem, é um problema para situação de guerras e de epidemia, pois essa conta vai aparecer mais tarde.
Redução do tamanho do nosso narcisismo, uma dieta de humildade para nosso ego, uma redução dessa polarização inútil, mediante da morte estamos todos iguais, uma abertura para uma solidariedade ativa, que é o que podemos e devemos fazer nessa situação, uma repactuação das nossas relações amorosas, trabalhistas e conosco, um convite a aumentar a tolerância, tudo isso são lições que vão nos fazer um pouco melhor. Não esperemos uma redenção, mas sim as pequenas lições que nos basta aprender.
Existe uma fórmula comum para todos lidarmos com a pandemia?
Não, é um acontecimento inédito ele requer soluções inéditas. Existem boas práticas, mas cada um precisa encontrar o seu caminho, pois cada um vive seu sofrimento de modo singular. Para uns é a culinária ou jardinagem, outro vai descobrir a esteira ou uma brincadeira com o filho. Sugiro reduzir a expectativa de desempenho. O importante é fazer pelo menos uma atividade prazerosa nova que esteja atrelada a esse período de Covid-19. Esse prazer novo vai ser depois a história para contar deste momento quando tudo passar. Quem não tiver história para contar, vão estar mais dispostos aos efeitos devastadores.
Convidamos a todos a viver isso no mais profundo da tristeza e das esperanças do que vai nos levar para a nova forma de vida. Alguns de maneira mais egoísta e outros de maneira mais solidária, é a hora que cada um se mostra quem é quem ou foge da situação ao negá-la.