O supermercado não pôde fechar e teve que se manter em funcionamento durante a pandemia do coronavírus. Afinal de contas, é lá que as pessoas adquirem os mantimentos necessários para a sobrevivência. Com isso, os funcionários ficaram em contato direto com os clientes, tendo que conviver com o medo e o desafio do risco de uma doença desconhecida. Uma trabalhadora que não saiu da linha de frente foi a fiscal de caixa Ana Paula Boeloni, de 28 anos, personagem deste episódio da série ProfissõES na Pandemia.
Ana Paula trabalha em um supermercado do Bairro das Laranjeiras, na região da Grande Jacaraípe, na Serra. Pela função de fiscal de caixa, precisa ter contato diário com outros funcionários e clientes. Com a pandemia, tudo se tornou mais difícil e desafiador. Mas ela conta que enfrentou as dificuldades sem medo.
"No início, foi desafiador porque todos os dias saíamos de casa, deixávamos nossas famílias. Não tinha a obrigatoriedade dos clientes entrarem de máscara. Não tinha a limitação de pessoas. Eu acredito que muitas pessoas sentiram medo, mas eu não senti, em momento algum, um medo absurdo. Pelo fato de eu não ter saído dessa rotina, por todos os dias eu ter que levantar, ir trabalhar. Então, minha rotina continuou a mesma, eu não parei em momento nenhum", diz.
"PARECIA UM FURACÃO"
Durante a pandemia, várias foram as situações vividas pelos funcionários de supermercados. Desde a falta de produtos à superlotação. E exatamente isso chamou a atenção e marcou Ana Paula. Ela conta que no começo da pandemia, quando as pessoas não tinham informações concretas sobre as restrições que seriam impostas, muitos clientes passaram a comprar muitos produtos para estoque, o que lembrou cenas, que segundo ela, são comuns em locais atingidos por furacões.
"O primeiro mês foi o que a gente teve muita resistência de clientes, porque tínhamos que estipular uma quantidade máxima de produtos. Os clientes não entendiam, ficavam com medo da gente fechar, de parar de funcionar. Eu até associei o movimento, principalmente nos fins de semana, igual nos Estados Unidos quando está para chegar um furacão, que as pessoas estocam comida e água". Ela completa:
"Foi essa a sensação que eu tive, parecia que iria chegar um furacão a qualquer momento e as pessoas estavam com esse medo"
MUDANÇA DE ROTINA EM CASA
Além das mudanças de rotina dentro da empresa, com a obrigatoriedade do uso de máscaras, limpeza constante das mãos com álcool gel, distanciamento e outros cuidados, Ana Paula destaca a mudança da rotina dentro de casa. Casada há 15 anos e mãe de uma menina de 7, o beijo, o abraço e os carinhos precisaram de uma maior cautela na volta para casa.
"Além das exigências nas lojas, a mudança foi sentida em casa. Que é chegar e não poder abraçar minha filha de imediato. Ter que tirar os sapatos, ir direto para o banheiro tomar banho, usar álcool também dentro de casa. Essa foi uma das principais coisas que eu percebi", conta.
GRATIFICANTE
Além de desafiador, a fiscal de caixa conta que é gratificante poder servir à população em um momento tão dramático, assim como outros profissionais que também estão na linha de frente.
"No início foi desafiador, agora é gratificante. Porque somos um serviço essencial como médicos, enfermeiros, bombeiros, socorristas, policiais"
APRENDIZADO
Assim, de desafiador à gratificante, Ana Paula conta o que aprendeu desta pandemia, que para ela, não escolhe ninguém e deixa lições importantes para o futuro.
"Esse vírus não veio pra escolher, e sim pra mostrar que todos nós somos iguais. É o que tirei de aprendizado em tudo isso: ninguém é melhor do que ninguém. Que a gente saia dessa pandemia e desse caos todo melhor do que entramos"
E completa: “Sabendo dar atenção aos pequenos detalhes, dar valor a um abraço, a um bom dia, boa tarde, a um gesto de carinho e de atenção. Não custa nada, um gesto pequeno, mas com um significado tão grande”, finaliza.