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Publicado em 20 de novembro de 2024 às 20:39
A realidade é visível para quem está disposto a enxergar, mas os números servem para confirmar: os negros são a maioria da população pobre e analfabeta. É o que aponta um estudo do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), com recortes de raça/cor, divulgado para marcar o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro. >
Esse cenário não distingue limites geográficos e é constatado tanto em nível nacional, abrangendo todo o território brasileiro, quanto em espaços menores, como a Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV). >
Desenvolvido pela Coordenação de Estudos Sociais do IJSN, com base em dados da Pnad Contínua do IBGE, o levantamento reafirma que o Brasil é formado majoritariamente por negros (pretos e pardos), que representavam, em 2023, 55,5% da população total do país. No Espírito Santo, eles chegavam a 61%. >
O estudo revela ainda que, no Brasil, 34,7% da população em situação de pobreza no ano passado era negra e, no Estado, 26,8%. Se considerado o componente sexo, as mulheres negras sofrem ainda mais os reflexos da desigualdade racial e de gênero. Em 2023, elas representavam no Brasil 36,4% das pessoas em condição de pobreza. No Espírito Santo, correspondiam a 27,9%.>
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"A ausência de políticas públicas desenvolvidas de maneira específica perpetua o cenário, deixando essas pessoas nesse lugar de pobreza e extrema pobreza", pontua a pesquisadora Valquiria Santos Silva, mestre em Ensino da Educação Básica pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e coordenadora de Estudos Sociais do IJSN. >
Para as mulheres negras, que estão na base da pirâmide social, as oportunidades são ainda menores, continua Valquiria, que já foi coordenadora administrativa do Programa de Inclusão da Juventude Negra - Núcleo Afro Odomodê, na Secretaria de Assistência Social de Vitória; gerente de Políticas de Promoção da Igualdade Racial na Secretaria de Direitos Humanos do Espírito Santo e vice-presidente do Conselho Estadual de Igualdade Racial do Espírito Santo. Assim, quando se analisa o mercado de trabalho, é para elas que, em geral, resta o trabalho doméstico. >
A propósito, muitas profissões no Brasil, ressalta a pesquisadora, são ocupadas predominantemente por negros, indicando as raízes escravagistas do país. A essa parcela da população, os indicadores apontam que há pouco espaço em cargos de liderança, no poder público ou na iniciativa privada.>
Conforme reflete o estudo, diversos fatores podem explicar a desigualdade no Brasil, entre os quais quase quatro séculos de escravidão e o passado colonial que criaram abismos entre regiões, pobres e ricos, negros e brancos, homens e mulheres.>
Para se ter uma ideia, citando um dado histórico também mencionado no levantamento, foi apenas a partir de um decreto, de setembro de 1878, que os negros maiores de 14 anos passaram a ter o direito de se matricular em cursos de ensino elementar. E somente no período noturno. >
Somente um século depois, com a Constituição Federal de 1988, é que a educação se tornou um direito de todos. Após tanto tempo sem as mesmas oportunidades, o resultado não poderia ser diferente: os maiores índices de analfabetismo são registrados entre a população negra. >
No Brasil, a taxa de analfabetismo era de 9,3% no ano passado, enquanto, entre os brancos, ficou em 5,4%. No Espírito Santo, a comparação não é muito diferente: 7,4% dos negros e 5,1% dos brancos eram analfabetos >
Mesmo para os que têm acesso à educação, nem sempre é garantida a permanência. Avançar nos estudos para a formação superior ainda é uma realidade para poucos. Enquanto 19,2% dos negros estavam fazendo faculdade em 2023, esse índice salta para 38,7% quando se trata de pessoas brancas. >
Para Valquiria Santos, políticas afirmativas, como o sistema de cotas de universidades, são fundamentais para garantir o acesso, mas ela defende que, para corrigir problemas relacionados à aprendizagem, que acabam deixando muitos estudantes negros pelo caminho, é necessário também investir em iniciativas na educação básica. >
"O ideal seria garantir a equidade nesta etapa. Com melhores resultados, podem ingressar nas universidade e, consequentemente, terão mais oportunidades no mercado do trabalho e em outros espaços sociais. A política de cotas é muito importante, mas podemos ir mais longe. Até porque ainda estamos muito distantes de um cenário de igualdade nas universidades", sustenta. >
As desigualdades são observadas por outros recortes que apontam, por exemplo, que o déficit habitacional afeta mais a população negra — 76% dos inscritos no CadÚnico no ano passado. São os negros que também, em sua maioria (60,9%), não têm acesso a saneamento básico e utilizam-se de fossas rudimentares ou buracos para os dejetos. >
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"A racialização de dados contribui para o entendimento de como alcançar o cenário ideal, de que as políticas públicas específicas são um caminho importante para tornar a sociedade mais equânime e, assim, a cor da pele não vai mais prevalecer para que as pessoas tenham acesso a direitos básicos", conclui a pesquisadora. >
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