Cães domésticos de médio e grande porte, ativos, brincalhões e motivados por comida podem se tornar aliados da ciência em uma pesquisa inédita no Brasil. A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) está recrutando animais para participar de um estudo que pretende treiná-los para identificar, por meio do olfato, sinais de câncer, tuberculose e esquistossomose em materiais biológicos humanos.
O projeto, batizado de Xero, é conduzido pelo Núcleo de Doenças Infecciosas (NDI/Ufes) e busca voluntários que queiram inscrever seus pets sem qualquer custo.
Os treinamentos serão realizados no Centro de Ciências da Saúde (CCS/Ufes), no campus de Maruípe, em Vitória, em uma área localizada atrás do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam). As atividades devem durar entre uma e duas horas por sessão, uma ou duas vezes por semana. O estudo terá duração de quatro anos.
Segundo os pesquisadores, os cães serão treinados por meio de reforço positivo. A dinâmica funciona como uma brincadeira: ao identificar corretamente uma amostra positiva para determinada doença, o animal recebe como recompensa sua comida favorita.
"Os desafios são próprios do método de treinamento e avaliação dos cães que já é bem desenvolvido em muitos países, tanto para detectar doenças como para detectar drogas ilícitas ou dinheiro", explica o professor do Departamento de Patologia da Ufes, Carlos Graeff, coordenador-geral do estudo.
O treinamento será supervisionado pelo médico veterinário Gustavo Jantorno, que possui experiência no trabalho com cães utilizados por órgãos federais, como a Receita Federal e o Ministério da Agricultura e Pecuária.
Como funciona
Os animais serão submetidos a testes com amostras biológicas armazenadas em tubos fechados e protegidos por sistemas de filtragem, sem qualquer contato direto com o material. De acordo com os pesquisadores, o procedimento é totalmente seguro para os cães.
Nos experimentos, as amostras serão organizadas em um carrossel mecânico desenvolvido pela equipe do professor da Universidade de Waikato (Nova Zelândia) Tim Edwards, responsável por colaborar na implementação do sistema na Ufes. Caso o cão não identifique sinais da doença, ele próprio poderá acionar o equipamento com o focinho para que uma nova amostra seja apresentada.
Todo o sistema será automatizado e monitorado por câmeras, reduzindo interferências humanas e aumentando a precisão dos testes.
A proposta é baseada na extraordinária capacidade olfativa dos cães. Segundo Graeff, os animais conseguem detectar compostos químicos em concentrações extremamente baixas, muito inferiores às identificadas pelos equipamentos laboratoriais atualmente disponíveis.
“Os cachorros conseguem perceber essas substâncias em concentrações de até uma parte por trilhão, o que é muito menor do que o limite detectado pelos aparelhos de laboratório atuais”, explicou Carlos Graeff.
Em uma etapa futura, os pesquisadores avaliam a possibilidade de os cães farejarem diretamente pessoas com suspeita de melanoma, um tipo de câncer de pele.
Pioneirismo
Além de buscar novas formas de diagnóstico para câncer e tuberculose, a pesquisa aposta em uma abordagem considerada inédita no mundo: a utilização de cães para detectar a esquistossomose, conhecida popularmente como barriga d'água, por meio da identificação de padrões de odor.
A proposta também é pioneira ao unir o trabalho dos animais à espectroscopia de infravermelho próximo (NIRS, na sigla em inglês), tecnologia que funciona como uma “leitura química por luz” e ainda é pouco utilizada na medicina humana para fins diagnósticos. Desenvolvida pela equipe da Ufes há quase uma década, a técnica projeta uma luz invisível na amostra de urina e lê, de forma imediata, as respostas químicas presentes no material.
Conforme Carlos Graeff, a ideia não é levar cães para atuar diretamente em postos de saúde ou hospitais. O objetivo é que os animais atuem em ambiente controlado, dentro do laboratório, enquanto as amostras sejam coletadas em unidades de saúde ou até mesmo nas residências dos pacientes e encaminhadas para análise.
Ainda segundo o professor, o objetivo é desenvolver uma estratégia de triagem simples, segura e de baixo custo que, futuramente, possa auxiliar o sistema público de saúde, especialmente em locais com pouco acesso a exames complexos.
O estudo reúne pesquisadores, professores, médicas e médicos veterinários, estatísticas e estatísticos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento da Ufes e de outras universidades brasileiras, como a Estadual de Campinas (Unicamp), a Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Federal de Sergipe (UFS).
A iniciativa também conta com parcerias internacionais com universidades de Portugal, da Austrália e da Nova Zelândia.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do CCS/Ufes, pelo Hucam/Ufes e pelo Comitê de Ética em Pesquisas com Animais (Ceua/Ufes), além de seguir as normas brasileiras para pesquisas com seres humanos e animais. Todo o projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Como se voluntariar
Os interessados podem entrar em contato pelo WhatsApp (51) 99981-8599, pelo e-mail [email protected] ou pelo perfil @caes.cancer no Instagram.