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Diálogos.ag

Acordo UE-Mercosul: especialistas apontam oportunidades e desafios para o agro do ES

Evento realizado em Santa Maria de Jetibá destaca a importância da conquista de novos mercados a partir de acordo firmado entre bloco de países da América do Sul e da Europa

Publicado em 17 de Julho de 2026 às 19:50

Weber Caldas

Publicado em 

17 jul 2026 às 19:50

Em meio às taxações impostas pelos Estados Unidos, o acordo de livre comércio firmado entre o Mercosul e a União Europeia é visto como uma janela de oportunidade para setores econômicos do Espírito Santo, em especial para o agronegócio. A conquista de novos mercados na Europa é apontada como caminho para evitar perdas em meio a um momento desafiador no comércio internacional. 


Porém, produtores rurais e empresários capixabas precisam, desde já, estar preparados para as exigências impostas por países europeus para a entrada de mercadorias na região, bem como para um possível aumento da concorrência local. Isso porque, com o tratado, também ficará mais fácil a chegada ao país de produtos industrializados vindos da Europa.


Esse cenário foi discutido durante mais uma edição do Diálogos.ag, com o tema “Acordo UE-Mercosul: novos mercados. Quais as oportunidades para o agro capixaba?”, realizado em Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana do Espírito Santo, durante a Feira Agro Nater Coop, nesta sexta-feira (17). 


Promovida por A Gazeta, com apoio da rádio CBN Vitória e parceria da Nater Coop, a conversa teve a participação de João Elvidio Galimberti, especialista de mercado de café, produtor rural e sócio da Nater Coop; Enio Bergoli, secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca; e Bruno Giestas, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics). A mediação foi conduzida por Abdo Filho, colunista de Economia e Negócios de A Gazeta.

Evento Diálagos em Santa Maria de Jetibá
Evento Diálogos foi realizado em Santa Maria de Jetibá Ricardo Medeiros

O debate apresentou detalhes do tratado entre o Mercosul e a União Europeia, firmado em janeiro deste ano, após décadas de negociação. O acordo prevê tarifa zero para 92% dos embarques de países integrantes do bloco comercial sul-americano – entre eles, o Brasil – para a Europa, no valor aproximado de US$ 61 bilhões. O texto também concede acesso preferencial a outros 7,5%, equivalentes a US$ 4,7 bilhões.


De acordo com levantamento de A Gazeta, em 2025, 13,5% das exportações capixabas foram destinadas a países europeus e somaram US$ 1,4 bilhão. Valores que demonstram a força do agronegócio do Estado e que podem ser ampliados a partir do tratado de livre comércio, como destacou o secretário Enio Bergoli.


“O Espírito Santo é pequeno no tamanho, mas gigante na produção. Somos expressivos em muitas cadeias produtivas. No ano passado, nossos produtos chegaram a 135 países, com destaque para a exportação de café, celulose, pimenta-do-reino, gengibre, mamão, cacau, pescados e até ovos. Precisamos do mercado internacional porque hoje o Brasil é pequeno para a força do agro capixaba”, disse Enio.

A União Europeia é um mercado importante. Abre-se uma perspectiva de melhorar a comercialização de produtos capixabas, ao longo de alguns anos, à medida que as taxas forem reduzindo.

Enio Bergoli secretário de Estado da Agricultura

Para Bruno Giestas, o acordo UE-Mercosul vem corrigir uma injustiça histórica sofrida pelo setor cafeeiro brasileiro, que desde 2006 convive com uma taxação de 9% sobre o café solúvel na Europa. Tarifa que deverá ser zerada, a partir do tratado, como já acontece com o café verde.


“O acordo permite a correção de um problema antigo. Desde 2006, a Europa colocou uma taxa de 9% sobre o café solúvel brasileiro. Então, o Brasil perdeu market share nesses 20 anos, já que os outros países não eram sobretaxados. Nesse tempo, a própria Europa investiu na indústria. Vai ser difícil recuperar esse mercado. Mas pelo menos o acordo nos coloca no mesmo nível de competição dos outros países”, observa o presidente da Abics.


Os benefícios podem se estender além do café, como destaca Enio Bergoli. “Mais de 70% da produção brasileira de gengibre sai do Espírito Santo e grande parte vai para a União Europeia. É um produto que tem boa perspectiva, porque tem qualidade e a Europa gosta”, exemplifica o secretário. 


Essa diversificação de mercado também surge como forma de driblar as tarifas impostas pelos Estados Unidos a uma lista de produtos brasileiros. Problema que se acentuou na última quarta-feira (25), com o anúncio pelo governo norte-americano da aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de mercadorias do Brasil.


“Precisamos sempre diversificar os mercados para o agro capixaba. Se dependermos dos EUA, por exemplo, para onde vão 22% dos produtos agrícolas do Estado, vamos estar sempre sujeitos às taxações impostas pelo Trump. Não podemos ficar nessa dependência”, salienta Enio.


Os especialistas alertam, porém, que, mesmo com o acordo, há desafios a serem enfrentados. A chance de conquistar novos mercados pode esbarrar em exigências de sustentabilidade e rastreabilidade impostas pela União Europeia a produtos vindos de outros mercados. Entre as metas que precisam ser cumpridas, está a garantia de que o produto não foi cultivado em área de desmatamento nem com a utilização de mão de obra análoga à escravidão.


“O mercado europeu é muito exigente nas questões de rastreabilidade e sustentabilidade. Hoje temos uma plataforma de selo verde, com Cadastro Ambiental Rural, em que damos um atestado ao produtor que segue exigências relacionadas à sustentabilidade. Com isso, conseguimos competir nesse mercado importante, mas exigente, que é a Europa”, aponta Enio.

Para superar esse e outros desafios, João Elvidio destaca a importância do papel de cooperativas no apoio aos produtores rurais.


“A maioria são pequenos produtores, que não conseguiriam acessar sozinhos o mercado europeu. As cooperativas dão esse apoio, por meio de plataformas de gerenciamento, mapeamento de propriedades e garantia de atestado de que o café não foi produzido em área de desmatamento ou em área que utiliza mão de obra análoga à escravidão. Isso tudo é importante para o cooperado”, aponta o sócio da Nater Coop.

O produtor vai ser cada vez mais cobrado sobre sustentabilidade e rastreabilidade. É uma tendência mundial, que seguirá aumentando

Bruno Giestas presidente da Abics

Enio Bergoli, por sua vez, alerta sobre o outro lado do livre comércio, com a ameaça que poderá surgir em função da entrada de produtos europeus industrializados a custos mais baixos no Brasil, o que pode ocasionar um aumento da concorrência para os itens fabricados localmente.


“Produtos industrializados, de alto valor agregado, poderão vir em condições melhores para competir aqui no Brasil. Produtos como queijo e vinhos vão chegar com um custo mais barato. Então, há um desafio para a agroindústria prosperar porque haverá uma competição no mercado interno maior do que a existente hoje”, afirma o secretário.


O caminho para enfrentar essa concorrência passa pela melhoria da qualidade dos produtos locais. Enio aponta a necessidade de o Estado não focar apenas na exportação de commodities, como o grão de café, mas também agregar valor ao agro aqui cultivado.


“Com esses acordos, a indústria vai ter de dar um passo acima. Se não abrirmos o olho, vamos continuar exportando matéria-prima e importando produtos de alto valor agregado. Se não melhorarmos, não teremos espaço para competir nem aqui nem lá fora." 

O acordo Mercosul-União Europeia não é um cheque em branco. É uma convocação. O Brasil está sendo chamado a gerar produto, e não commodity, com rastreabilidade e identidade.

João Elvidio Galimberti, sócio da Nater Coop

A Feira Agro Nater Coop prossegue até sábado (18), no Centro de Eventos Sofia Anholz Berger. No encerramento, além de participar de sorteios e visitar estandes e exposições, será possível acompanhar a palestra Reforma Tributária: impactos para o produtor rural, com a contadora e especialista em tributação empresarial Patrícia Ferreira Negris, sócia da Dickel Consultoria.

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