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Política

Entre real e virtual, a busca é pela narrativa ideal a favor das eleições

Hoje, o processo de formação das opiniões e das visões de mundo tem mais influência da “esfera pública virtual” – a mídia digital – e menos influência da “esfera pública real” – a mídia tradicional

Publicado em 30 de Novembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

30 nov 2019 às 04:00
Antônio Carlos Medeiros

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Antônio Carlos Medeiros

Celular hackeado: perigo no mundo digital ronda até as eleições Crédito: Divulgação
As lideranças políticas que estão no centro, assim como as do lulopetismo, vão precisar se preparar para a disputa, até 2022, de narrativas, mitos e fofocas (fake news). Bolsonaro sai na frente.
Hoje, o processo de formação das opiniões e das visões de mundo tem mais influência da “esfera pública virtual” – a mídia digital – e menos influência da “esfera pública real” – a mídia tradicional. As plataformas de comunicação dominantes em escala internacional são 3, como se sabe: Facebook (com WhatsApp, Instagram e Messenger); Alphabet (Google e YouTube) e Twitter. Juntas, elas se sobrepõem à tradicional “esfera pública real”, o locus da formação de opinião pública da era analógica, compreendendo a mídia tradicional e o Parlamento.
Desde 2012, o Facebook se tornou a mais poderosa máquina de propaganda e persuasão política, influenciando (com outras plataformas) comportamentos e atitudes políticas e até razões de voto na hora das eleições. Quem não se lembra do efeito devastador da ação da Cambridge Analytica em vários países, inclusive nos EUA e no Brexit?
A ação de “hackers” (sejam eles indivíduos, empresas e até países estrangeiros) não são anomalias, mas o novo normal. Ferramentas de persuasão política que acabam funcionando mais a favor dos extremos, do que a favor do centro, como argumenta Martin Moore (“Democracy Hacked”). Moore alerta que o dilema crítico que se coloca e que é irreversível, é: as plataformas estão reconfigurando sistemas políticos e o próprio funcionamento da democracia. E estimulam o surgimento de salvadores da pátria.
Bolsonaro preparou-se para a democracia reconfigurada. Entendeu a importância da “ordem imaginada” (mitos e símbolos) e colou sua imagem ao poder de mobilização das religiões e das ideias de nação e família. Lida bem com as ferramentas virtuais e adquiriu capacidade de produção de fofocas (fake news). Entre os pré-candidatos às eleições de 2022, ele só perde para Luciano Huck, uma celebridade global, em matéria de seguidores no Instagram, na fanpage do Facebook e no Twitter.
Bolsonaro entendeu a nova cabeça dos brasileiros, no espírito de época pós-2013. Trata-se da maior influência das igrejas pentecostais, da valorização do consumo e do empreendedorismo popular. Com nova visão de mundo: Individualismo, empreendedorismo e livre iniciativa, com novo papel do Estado. O lulismo e o centro operam mais na “esfera pública real”. É pouco. É preciso operar nas plataformas para disputar as preferências com Bolsonaro.
Na disputa de narrativas, uma ideia forte é a de que a ampliação da miséria, da pobreza e da desigualdade trava a capacidade de crescimento do Brasil. Embutida nesta narrativa, está a incapacidade de entregas do Estado e a ausência de um projeto de futuro e de nação. É preciso gerar riqueza social.
Também não se pode ignorar o efeito disruptivo da revolução das comunicações digitais no próprio funcionamento da democracia, que se fragilizou. Na Estônia, por exemplo, as plataformas tecnológicas têm sido usadas para fortalecer a democracia. Mas na maioria dos países, não. Ao mesmo tempo, é preciso aprimorar as instituições da democracia representativa. No Brasil, significa adotar o voto distrital misto e instituir a opção semipresidencialista, para a melhoria das condições de governabilidade. 2022 paira na política brasileira...

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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