Se bem atentarmos para os números relativos a empregos formais no Brasil nos últimos 15 anos vamos chegar à triste conclusão de que nossa economia está se transformando lentamente, e na crise mais aceleradamente, em uma economia de baixos salários.
Isso significa que estruturalmente nossa economia vem perdendo capacidade de gerar postos de trabalho com maiores exigências em qualificação e, consequentemente, também em remuneração. Fenômeno que dificulta ainda mais uma retomada mais firme da economia e contribui para a redução da produtividade geral do sistema.
Entendemos, por princípio, que uma economia se movimenta, ou seja, gera dinamismo, cresce e se desenvolve tendo como fonte motora sempre o lado da demanda. E, nesse aspecto, a massa de renda apropriada pela população ocupada, considerado o componente de maior peso, desempenha papel fundamental no acionamento do consumo e também de investimentos produtivos, pela via da indução.
Analisando dados históricos do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho, vamos ver que nesses últimos 15 anos o saldo entre admitidos e demitidos para faixas mais altas de salários foi negativo. A estimativa é de que cerca de 7 milhões de postos de trabalho formais nessas faixas praticamente desapareceram do mapa. A maioria dos quais no setor industrial.
Em 2019, o saldo líquido de empregos formais atingiu 644 mil. Um número até razoável tendo em vista o histórico dos últimos quatro anos, porém, ainda muito longe de expressar uma reação capaz de sinalizar uma recuperação mais rápida dos atuais 12 milhões de desempregados. O lado mais preocupante é que a maioria desses novos postos de trabalho estão em faixas de rendimento abaixo de dois salário mínimo.
Uma reação mais firme na direção da absorção de mão de obra mais qualificada somente virá com novos investimentos, que deverão vir carregados de maior sofisticação e complexidade tecnológica. Mas o fato relevante e que merece atenção, especialmente em termos de políticas públicas, é que esse novo processo não privilegiará a tradicional relação emprego-salário do tipo formal, mas sim novas formas, mais flexíveis, de relações de trabalho. Aliás, fenômeno que já se mostra presente, em grande parte motivado pela crise.