A eleição de 2018 chegou de uma vez por todas ao plenário da Assembleia Legislativa. E agora o governo Paulo Hartung (PMDB) tem um “líder informal” na Casa, determinado a não deixar mais sem resposta nenhuma crítica ou acusação lançada por deputados da oposição.
Durante a sessão plenária de ontem, o segundo secretário da Mesa Diretora, Enivaldo dos Anjos (PSD), protagonizou feroz embate com três oposicionistas numa tacada só: Sergio Majeski (de saída do PSDB), Da Vitória (PPS) e Freitas (PSB). E avisou:
“Não queremos tirar o direito da oposição de discursar. A oposição pode discursar. Mas, se ela provoca, ela vai ter reação. E o que eu entendo que a oposição faz aqui, com exceção do deputado Bruno Lamas, é provocar oposição ao governador Renato (Casagrande). Uai, se é isso, então nós vamos fazer. Não vamos mais deixar ele correr livre como está fazendo. Vamos começar a partir para cima dele. Não é isso que o PSB quer? Não é isso que a oposição quer? (...) Estou convocando as pessoas para um debate inteligente em favor do Espírito Santo, e não um debate político-eleitoral. (…) O debate proposto pelo PSB está aceito.”
Com base no discurso de Enivaldo, se ele estiver mesmo disposto a levar a ferro e fogo sua advertência – e normalmente está –, acabou aquele negócio de “deixar a oposição falar sozinha”. Até agora, essa vem sendo a estratégia adotada, de maneira declarada, pelo líder e pelo vice-líder do governo na Casa, respectivamente Rodrigo Coelho (PDT) e Jamir Malini (PP).
Questionado em fevereiro sobre isso, Coelho afirmou que a estratégia era não rebater em plenário discursos de deputados que já têm convicção formada e que não podem ser convencidos com argumentos, até para não aumentar a repercussão de seus pronunciamentos. Isso após uma sessão em que Majeski, mais uma vez, roubara a cena na tribuna, com uma saraivada de apontamentos críticos sobre as políticas educacionais de Paulo Hartung.
E assim, de “deixa pra lá” em “deixa pra lá”, a verdade é que a oposição se criou debaixo dos narizes indiferentes da base. A tal ponto que hoje, apesar de muito menos numeroso, o bloquinho de oposicionistas praticamente monopoliza a tribuna, beneficiado pela passividade dos governistas. Faz tempo que assistir a uma sessão da Assembleia é ver o “Show da Oposição”, com Majeski, Da Vitória, Freitas e Euclério se revezando em cena.
Em seu estilo conhecido – bom de briga, bom orador e desenvolto quando sobe à tribuna –, Enivaldo decidiu dar um basta nisso. Ontem, apresentou-se – espontaneamente, segundo disse à coluna – para a função de “rebatedor oficial” do governo. De agora em diante, com Enivaldo, será "bateu, levou". É uma mudança e tanto, pois a postura e o estilo dele são opostos aos de Rodrigo Coelho. O que o líder oficial tem de diplomático e conciliador, Enivaldo tem de explosivo e de trombador. Tanto que, à boca pequena, é chamado de “coronel” por colegas.
Ontem, de improviso, o “coronel” usou a tribuna para enfrentar o trio citado. Eles haviam criticado o governo a partir das imagens de crianças sendo atendidas em condições degradantes, no chão do Hospital Infantil de Vila Velha, e da manchete de A GAZETA no domingo, que revelou o altíssimo número de crianças e adolescentes fora da escola no Espírito Santo.
Sobre a evasão escolar, Enivaldo contestou: “É um problema que independe do governo. Independe do governo Paulo Hartung como independeria do governo Renato (Casagrande). Porque não é o governador que tem culpa dela nem o prefeito que tem. (…) Ele tem poderes para entrar na casa do estudante e levá-lo para a escola na marra? (…) A manchete (de A GAZETA) coloca o Estado como responsável por uma coisa de que o Estado não é responsável.”
Já sobre a situação do hospital, Enivaldo sugeriu que aquelas fotos poderiam ser montagem. “Eu sei, por exemplo, que tem sindicatos dentro de órgãos da Secretaria de Saúde tentando forjar fotos de pessoas no chão para criar crise na administração da Saúde.” E minimizou: “Em todos os governos aconteceu isso. Não é porque faltou leito para três, dez, quinze, vinte crianças, que isso torna o governo incapacitado.”
Sim, são argumentos frágeis. Mas é uma notável diferença em relação ao “silêncio ruidoso” e envergonhado que até então imperava na base. Algo que, garante Enivaldo, não se verá mais ali.
“Os deputados Freitas, Da Vitória e Euclério têm buscado oposição ao ex-governador Renato (Casagrande). Então o ex-governador Renato vai ter oposição agora aqui, para atender o deputado Freitas, para atender o deputado Da Vitória. Nós vamos fazer comparações aqui, sim. Por que ele se dá ao luxo de mandar os seus líderes virem para cá para provocar oposição a ele? É porque ele gosta do debate. E ele vai ter debate. Já que é (sic) os seus deputados que estão pedindo isso”, prometeu o deputado. O mesmo que, minutos antes, também havia assegurado:
“Eu vou topar essa discussão de individualizar e discutir quem é Renato e quem é Paulo Hartung. Tô dentro!”
Com toda essa tensão pré-eleitoral e a polarização entre Hartung e Casagrande reinstalada de vez no plenário, as próximas sessões prometem dar o que falar.
"Imagem do Estado"
Ainda na sessão ordinária de ontem na Assembleia, o novo "líder informal" do governo Paulo Hartung no plenário usou uma estratégia largamente usada por secretários do governo: a de tratar críticas ao governo Paulo Hartung como críticas ao Espírito Santo. “Tem outras formas de fazer oposição ao governador Paulo Hartung, ao ex-governador Renato, sem querer ficar criando situações que atinjam a imagem do Estado. (…) Não pode querer colocar demérito, e a oposição faz isso, por questão política. Mas não é por amor ao debate, não é por um debate saudável. É por um debate de baixo nível, por um debate eleitoral.”
"Cabeça pequena"
Para Enivaldo, "quem quer se vangloriar de que as pessoas estão morrendo ou podem morrer para fazer oposição é uma cabeça pequena, é uma cabeça fraca, porque em todo governo aconteceu isso, inclusive no governo passado.”
Hartung pede atenção
O governador Paulo Hartung reuniu ontem de manhã seu secretariado para pedir a todos atenção redobrada com as regras e restrições impostas pela legislação eleitoral. O procurador do Estado Rodrigo de Paula foi chamado para dar explicações a toda a equipe e tirou dúvidas dos secretários (não só pré-candidatos). Alguns dos que fizeram perguntas foram o chefe da Casa Civil, José Carlos da Fonseca Júnior (PSD), a secretária de Comunicação, Andréia Lopes, e o diretor-presidente da Cesan, Pablo Andreão.
Desincompatibilizáveis
Os secretários mais cotados para disputar a eleição são o de Segurança, André Garcia (sem partido), a deputado federal; o de Agricultura, Octaciano Neto (PSDB), a federal; o da Casa Civil, Fonseca Júnior (PSD), a vice-governador ou suplente de senador; o de Desenvolvimento Urbano, Rodney Miranda (DEM), a federal; o de Ciência e Tecnologia, Vandinho Leite (PSDB), a deputado estadual; e o de Direitos Humanos, Júlio Pompeu (PDT), a deputado estadual ou federal.
Norma quer tocar o DEM
A deputada federal Norma Ayub (DEM) afirmou ontem, por nota, que o presidenciável do DEM, Rodrigo Maia, e o novo presidente nacional da sigla, ACM Neto, “manifestaram o interesse de as Executivas Estaduais serem comandadas pelos deputados federais do partido”. Nesse caso, ela mesma assumiria o comando do DEM no Espírito Santo, onde é a única deputada federal pelo partido.
E não é blefe!
Consultada pela coluna, a assessoria de imprensa da Executiva Nacional do DEM informou que, na semana passada, todos os diretórios estaduais do partido foram dissolvidos, inclusive no Espírito Santo. “Dessa forma, o partido nacional irá montar as estruturas Estado por Estado”.