Recentemente, vi uma charge em que dois rapazes pedalando suas bicicletas e portando aquelas “mochilas-caixa” travavam um diálogo que precisa ser refletido. Um deles perguntava: “Você não dorme melhor sabendo que é seu próprio patrão”? O outro rapaz respondia: “Eu não durmo”. A charge trazia o título “Os empreendedores”.
Estima-se que quatro milhões de pessoas trabalham para aplicativos de entrega, de acordo com o Instituto Locomotiva em pesquisa divulgada em abril de 2019. Segundo uma reportagem de Liana Coll, publicada em novembro de 2019 no Jornal na Unicamp, “um trabalhador pedala 140 km por dia, sete dias na semana, entre 12 a 18 horas por dia, para perceber de R$ 1.000 a R$ 3.000 por mês”.
Cruza-se no cotidiano desses quatro milhões de pessoas e utiliza-se os seus serviços não se dando conta de que constituem, na verdade, uma miríade de pessoas que não possuem direitos, nem mesmo ao descanso. Se submetem a um trabalho desgastante e estressante, em que os seus corpos são os motores, os riscos no trânsito são desafios malabares, o tempo funciona como seu algoz, e, às vezes, uma recepção grosseira é o que encontram quando chegam ao seu destino. Não possuem garantias, nem o direito de reclamar ou descansar.
O mais cruel com essas pessoas, que são vistas como máquinas, é o discurso de sedução que o sistema, que lucra com essa exploração, apresenta, o de empreendedorismo. Para fazer vender a agilidade propagada pelas plataformas, consequência da revolução 4.0, a força física de milhões de pessoas precisa ser utilizada, e o corpo, mesmo que cansado, precisa trabalhar mais do que aguenta para garantir o mínimo de remuneração para sobreviver, dando a falsa impressão de que a era digital é a saída para os problemas da humanidade.
Essa miríade de jovens, em sua maioria, não é empreendedora, mas escrava das plataformas que atualizam os mecanismos mais perversos que a humanidade já experimentou, a escravidão e o controle dos corpos. Corpos que precisam estar em constante movimento, sem direito sequer a uma pausa para descanso, e que tem no celular o capataz pós-moderno.
É preciso refletir que se para o conforto de algumas pessoas, outras tantas são violadas, algo está errado. E assim deixar para trás o histórico de que as grandes conquistas da humanidade precisam ser pavimentadas por grandes violações.