Quase três milhões de capixabas estão aptos a votar no próximo dia 4 de outubro, no primeiro turno das Eleições 2026. E a urna eletrônica, sistema utilizado para registrar o voto dos eleitores no país há 30 anos, é um dos principais temas durante a corrida eleitoral. De acordo com uma pesquisa realizada pela Quaest, em fevereiro deste ano, 53% dos brasileiros consideravam a urna eletrônica confiável, contra 43% que disseram não confiar, mesmo sem o registro de qualquer fraude comprovada desde a implantação do voto eletrônico, em 1996.
Para ficar por dentro de como funciona a urna eletrônica, os alunos da 29ª turma do Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta foram ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES) para conversar com especialistas no assunto. O foco da conversa foi entender como atuam os mecanismos de proteção que, há 30 anos, livram o processo de votação de fraudes que aconteciam nos tempos em que o voto no papel era depositado nas urnas de lona.
Segundo o chefe da Seção de Logística de Urnas e Voto Informatizado do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES), Alfredo Andrade dos Santos Junior, a urna eletrônica opera ligada à rede elétrica, mas não depende da energia local. Ela conta com bateria própria para garantir o funcionamento ininterrupto em caso de queda de luz. Ele explica que a urna eletrônica não possui qualquer conexão externa, como acesso à internet ou Bluetooth, o que impede invasões por hacker. "O projeto da urna não permite a implantação de qualquer dispositivo capaz de se conectar a outro", reforça.
A urna utiliza um conjunto de softwares responsáveis pelo funcionamento do equipamento e pela execução do processo de votação. São feitas verificações de autenticidade e integridade dos programas, por meio de barreiras de proteção, como a assinatura digital e o hash.
"O hash é uma espécie de impressão digital matemática de cada arquivo. Ele é um resumo digital que permite verificar, posteriormente, se o sistema utilizado na eleição corresponde à versão que foi testada, sem alterações", explica o técnico.
Após a conclusão dos testes, os programas são gravados em mídias não regraváveis e lacrados (física e digitalmente) para posterior armazenamento na sala-cofre do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Essas verificações são acompanhadas por entidades fiscalizadoras e representantes de partidos políticos como garantia de transparência.
Segundo o Alfredo Junior, outro mecanismo essencial de verificação é a zerésima, documento emitido antes do início da votação para demonstrar que a urna não contém votos. Encerrada a votação, o resultado de cada seção é gravado em uma mídia física (espécie de pendrive), protegido por assinaturas digitais que permitem verificar a autenticidade dos dados e identificar a urna de origem. A mídia é então encaminhada para a transmissão dos resultados à Justiça Eleitoral.
E para conferir se o resultado registrado pela urna é o mesmo recebido pelo sistema de apuração, a auditoria permite a comparação do Boletim de Urna (BU) impresso e afixado em cada seção com os dados recebidos pelo sistema eletrônico. "O BU contém a quantidade de votos atribuída a cada candidato naquela seção", explica Alfredo Junior. O TSE disponibiliza publicamente os arquivos do Registro Digital do Voto (RDV), que assegura a transparência na contagem sem violar o sigilo do voto.
Após a emissão do Boletim de Urna, os dados do resultado são gravados em uma mídia própria e encaminhados a um ponto de transmissão, já que a urna não tem conexão com internet. A partir de computadores autorizados, os arquivos são enviados aos sistemas da Justiça Eleitoral por meio de rede privada, com mecanismos de assinatura digital e criptografia. Recebidos pelo TRE-ES, os dados são processados e totalizados.
Durante a visita ao TRE-ES, os residentes conheceram o Centro de Memória, que mostra um retrospecto e a evolução do processo eleitoral no país. Antes da implantação do voto eletrônico, o Brasil decidia o futuro de seus governantes por meio de cédulas de papel. A falta de segurança do modelo facilitava fraudes eleitorais, já que até a apuração era feita manualmente. Um tipo de fraude naquela época era o da “urna grávida”: antes do início da votação, cédulas preenchidas eram depositadas na urna de lona, ou seja, ela já chegava à seção eleitoral cheia de votos.
Para acabar com esse tipo manipulação no processo de votação, 30 anos atrás a urna eletrônica foi implantada, inicialmente em 57 cidades com mais de 200 mil eleitores, abrangendo cerca de um terço do eleitorado brasileiro na época. Em 1998, a votação eletrônica foi ampliada para municípios com mais de 40 mil eleitores, e nas eleições municipais de 2000 passou a ser adotada em todo o país.
Desde então, as urnas passam por testes em laboratórios, tanto de resistência quanto de segurança, com o objetivo de prevenir qualquer dano físico ou digital. Os exames de verificação acontecem antes, durante e após a eleição – com presença de especialistas e instituições – para preservar a integridade de todo o processo.
*Este conteúdo foi produzido por Tiago Taam, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação da editora Giuliane Calvi.