São exemplos corriqueiros, experiências compartilhadas por muitas mulheres. Ao entrar em um ônibus, é comum mapear com cuidado o ambiente para escolher um assento em que não fiquem vulneráveis a investidas masculinas. Outras optam por pedir transporte por aplicativo para distâncias próximas, só para evitar uma caminhada na rua. Em cada escolha, quem comanda é o medo.
O Gazeta Meio Dia, da TV Gazeta, apresentou uma reportagem que reuniu outras situções em que o comportamento das mulheres no dia a dia é limitado pela insegurança nos espaços públicos. Muitos homens podem afirmar que também fazem escolhas mais seguras nas ruas.
A diferença, que torna específica a situação das mulheres, é uma sutileza escandalosa, que as força a manter o radar ligado quase todo o tempo: o assédio e outras abordagens violentas, de cunho sexual, que não são comuns entre os homens. Além, é claro, da própria violência urbana.
E isso foi quantificado por uma pesquisa realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva. São números relevantes: 62% das brasileiras já mudaram hábitos de lazer para evitar situações de risco; 98% adotam estratégias diárias para ter mais segurança; 58% deixaram de frequentar lugares de que gostavam por medo. E até oportunidades de trabalho são descartadas pelo medo de violência, segundo 45% das entrevistadas.
Essa abordagem da violência de gênero que extrapola a violência doméstica precisa estar também mais presente na agenda pública. A vulnerabiidade feminina deixa evidente como as cidades são vivenciadas de forma diferente por homens e mulheres.
A tecnologia, como aplicativos que dão a localização da usuária, é cada vez mais utilizada como estratégia de proteção, já que a sociedade não garante essa segurança. A liberação recente do uso de spray de pimenta por mulheres para defesa pessoal é também reflexo dessa reação.
O enfrentamento consistente tem a educação contra o machismo e a misoginia como base, mas também depende de políticas públicas pontuais e certeiras, pensadas para ampliar a liberdade de ir e vir das mulheres.
Tanto a Assembleia Legislativa quanto a Câmara dos Deputados tiveram recorde de mulheres eleitas nestas eleições, uma oportunidade de tratar essa pauta de modo mais aprofundado, com projetos para mudar verdadeiramente essa realidade.
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