A cena de um criminoso que se entrega à polícia tem um forte apelo na ficção. Em livros, filmes e séries policiais, é uma reviravolta, o fim de uma busca, quando o próprio bandido desiste de fugir e se dá por vencido. É a justiça sendo feita. Foi o que aconteceu nesta quinta-feira em Cariacica, mas o desfecho teve a cara do Brasil, conseguindo ser ainda mais surpreendente do que a ficção.
Diego Mendes Quaresma, conhecido como Nego, é acusado de um crime bárbaro, que chocou pela banalidade: o assassinato a facadas do filho da ex-esposa de seu comparsa, no fim de setembro. Diego esteve foragido desde então, e na quinta-feira foi convencido pela mãe a se entregar. Para surpresa geral, ao chegar à Delegacia de Cobilândia, em Vila Velha, os policiais não puderam prendê-lo porque não encontraram o mandado de prisão. A orientação no local foi digna de uma repartição pública: que procurasse outra delegacia. Até para ser preso voluntariamente, no Brasil, a burocracia não ajuda.
Só não é mais bizarro pelo repertório acumulado de sandices em um país que parece fazer questão de fugir de qualquer lógica. É a Justiça que não tem perna para fazer justiça, com processos demorados que acabam materializando a impunidade que tanto revolta os cidadãos. O retrato de um serviço público moroso, ineficiente, que cheira a desperdício de tempo e dinheiro em qualquer área que atue.
É inacreditável que, em pleno século XXI, não haja comunicação entre as delegacias, um sistema digital que permita o acesso aos mandados de prisão. O delegado da DHPP de Cariacica, que acabou efetuando a prisão, justificou que o documento constava como restrito e por isso não pôde ser consultado em Cobilândia. Mas não há desculpa: os procedimentos são falhos, de causar vergonha. Ao liberar o acusado, a polícia deu a ele a chance de reconsiderar a decisão de se entregar. Uma cena tão nonsense que é digna de esquetes de comédia, não de um filme policial.