Publicado em 26 de outubro de 2021 às 18:30
A piora das perspectivas para a economia brasileira, na esteira do IPCA-15 de outubro acima do esperado, aliada ao sinal predominante de alta da moeda norte-americana no exterior, levou investidores a recompor posições defensivas no mercado de câmbio doméstico, jogando o dólar para cima na sessão desta terça-feira >
A perspectiva de anúncio de uma alta mais agressiva da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (entre 1,5 e 2 pontos porcentuais) e de um aperto monetário mais prolongado tem, por ora, um efeito misto sobre a taxa de câmbio.>
Por um lado, aumenta, em tese, a atratividade das operações de carry trade, já que eleva o diferencial de juros interno e exterior. De outro, aumenta as chances de uma recessão em 2022 e onera o financiamento da dívida pública, justamente em momento de dúvida sobre o regime fiscal. Pela manhã, operadores atribuíram a alta do dólar à inclusão da PEC dos Precatórios, que traz mudança na regra de cálculo do teto dos gastos, na pauta do dia da Câmara dos Deputados. No fim da tarde, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que votação será "muito provavelmente amanhã".>
Espremido entre essas forças contrárias, o real não encontrou nesta terça forças para dar sequência à recuperação esboçada no pregão de segunda-feira, embora não tenha amargado, desta vez, o pior desempenho entre divisas emergentes, papel que coube ao rand sul-africano. O DXY - que mede a variação do dólar frente a seis divisas fortes - trabalhou em alta moderada, em dia de dados positivos da confiança do consumidor nos EUA.>
>
Afora uma queda pontual pela manhã, a moeda americana operou com sinal positivo durante todo o pregão e chegou a se situar acima de R$ 5,60 no início da tarde, ao atingir a máxima de R$ 5,6064 (+0,91%). Com arrefecimento da pressão altista ao longo das duas últimas horas da sessão, o dólar fechou a R$ 5,5734, com variação positiva de 0,32% - o que leva a valorização acumulada em outubro a 2,34%>
A economista do Banco Ourinvest Cristiane Quartaroli observa que, embora a alta dos juros possa ter um impacto positivo para o câmbio, a conjunção de um quadro inflacionário ruim, ratificado pelo IPCA-15 de outubro, com baixo crescimento econômico "escancara a fragilidade" do Brasil e limita o fôlego do real. "O combo de incertezas políticas e fiscais, baixo crescimento, alta dos juros e da inflação só pode refletir em mais pressão e volatilidade para a nossa taxa de câmbio", afirma Quartaroli, ressaltando que a inflação já supera dois dígitos.>
Pela manhã, o IBGE divulgou que, depois de ter avançado 1,14% em setembro, o IPCA-15 acelerou para 1,20% em outubro, superando a mediana de 1,00% de Projeções Broadcast e se aproximando do teto das estimativas (1,25%). Em 12 meses, o índice acumula alta de 10,34%.>
A resposta do mercado ao IPCA acima do esperado foi jogar mais lenha na fogueira das projeções de alta da taxa básica pelo Copom de quarta-feira, com uma elevação de 1,5 ponto porcentual sendo considerada agora como "piso" pela maioria das instituições. A leitura predominante é que o BC, órfão da política fiscal, tem que ser ainda mais duro para conter a deterioração das expectativas inflacionárias.>
O head de câmbio da HCI Investimentos, Anilson Moretti, vê possibilidade de o dólar recuar para o patamar de R$ 5,50 caso o Copom promova, pelo menos, uma alta da Selic em 1,5 ponto porcentual na quarta, de 6,25% para 7,75% ao ano. "A inflação está elevada e a política fiscal provoca muita incerteza. Um aumento mais forte dos juros pode trazer alívio para o câmbio", afirma Moretti, que vê potencial para entrada de fluxo externo, tanto para explorar o diferencial de juros quanto para eventuais pechinchas na Bolsa. "O BC tem que ao menos tentar estancar essa piora das expectativas que estão acontecendo. Acredito em alta 1,5 ponto".>
Moretti identifica uma pressão "compradora" por dólar por parte das instituições financeiras, que deve se intensificar no fim do ano. O BC, avalia, está "mais atento" à questão cambial, como demonstram as intervenções recentes, tanto para lidar com o overhedge dos bancos quanto para suprir demandas pontuais com oferta extra de swaps e até venda de dólar à vista.>
Entre os indicadores divulgados ao longo da tarde, destaque para os dados da arrecadação em setembro, de R$ 149,102 bilhões, acima da mediana das estimativas de Projeções Broadcast (R$ 14,7,70 bilhões) e representou alta real de 12,87% em relação a setembro do ano passado. Pela manhã, dados do Caged mostraram criação de 313.902 postos de trabalho em setembro, abaixo das mediana das projeções, de 360 mil vagas.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta