Publicado em 5 de março de 2021 às 15:31
- Atualizado há 5 anos
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) confirmou nesta sexta (5) a abertura de um processo para investigar operações atípicas com ações da Petrobras um dia antes da demissão do presidente da companhia, Roberto Castello Branco, pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).>
As operações foram realizadas na quinta (18), mas até terça (2) ainda não havia processo aberto pela autarquia. Nesta sexta, apesar de confirmar o início das apurações, a CVM não deu mais detalhes, alegando que "não comenta casos específicos".>
O processo apura a negociação de opções de venda de ações da Petrobras pouco depois de reunião entre Bolsonaro e ministros para selar o destino de Castello Branco, que será substituído no comando da estatal pelo general Joaquim Silva e Luna.>
O comprador das opções apostou na queda das ações da empresa, o que de fato ocorreu depois que Bolsonaro sinalizou, em sua live de quinta à noite, que faria trocas na petroleira. A mudança só foi oficializada na sexta (19) à noite, em publicação em redes sociais -o que também é alvo de um processo da CVM, já que este tipo de comunicação deveria ser feita por fato relevante.>
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As operações foram feitas por uma corretora chamada Tullet Prebon. O alto volume de negócios, bem superior à média dos papéis, levanta no mercado suspeitas de uso de informação privilegiada, já que foram feitos entre a reunião ministerial e a live de Bolsonaro.>
Na sexta, as ações preferenciais da empresa caíram 6,63%. Na segunda, primeiro dia útil após a confirmação da troca de Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna, a queda foi de 26,7%. Nos dois pregões, a estatal perdeu R$ 102,5 bilhões em valor de mercado.>
O nome dos responsáveis pela ordem de compra -chamados pelo mercado de comitentes- não é público ainda, embora a CVM e a B3 já tenham acesso a essa informação. Para comprovar o uso de informação privilegiada, é preciso provar que eles tiveram acesso ao conteúdo da reunião antes de executar as ordens.>
Segundo especialistas, existe a possibilidade de que investidores com forte exposição à Petrobras possam ter comprado as opções para se proteger de uma possível queda no preço das ações após o início das críticas de Bolsonaro.>
O presidente já vinha questionando a política de preços dos combustíveis. Mas a temperatura subiu, de fato, na noite de quinta, após a reunião com os ministros, quando ele anunciou a isenção de impostos no preço do diesel e sinalizou com troca na Petrobras em sua live semanal na internet.>
Nesta quinta (5), em sua live semanal, Bolsonaro afirmou que "especuladores mafiosozinhos que tem em tudo quanto é lugar" ganharam dinheiro na Bolsa de Valores "falando mentiras" sobre a interferência dele na Petrobras.>
"Não houve interferência. Eu não falei vou baixar o preço na canetada. Me acusaram de tudo, (de) intervencionista", disse em sua live semanal transmitida pelas redes sociais.>
São poucos os casos de punições a esse tipo de crime no país. Geralmente, segundo especialistas, apenas os casos com maior visibilidade geram processos tanto na esfera administrativa quanto na criminal. Em fevereiro, por exemplo, o empresário Eike Batista recebeu sua segunda condenação por crimes contra o mercado de capitais.>
Na decisão, ainda de primeira instância, a juíza federal Rosália Monteiro Figueira decretou pena de 11 anos e 8 meses por uso de informação privilegiada e manipulação com as ações da petroleira OGX.>
Em sua primeira fiscalização sobre a CVM, em 2020, o TCU (Tribunal de Contas da União) apontou uma série de fragilidades na supervisão do mercado de capitais brasileiro, incluindo deficiências na punição por uso de informação privilegiada.>
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