Publicado em 28 de janeiro de 2021 às 09:40
- Atualizado Data inválida
O aumento da desigualdade de renda provocado pela pandemia da Covid-19 comprometerá o crescimento global nos próximos anos e pode desencadear uma nova onda populista e anti-reformas em países que precisam modernizar suas economias, como o Brasil. >
Mais endividados e com déficits maiores após os gastos extras na pandemia, muitos países terão dificuldade em explicar aos eleitores, em um cenário de mais desigualdade e empobrecimento, que a eventual perda de direitos no presente (como numa reforma para conter o gasto público) representaria crescimento maior à frente.>
Segundo dois dos maiores especialistas em desigualdade da atualidade, Angus Deaton, prêmio Nobel de Economia, e Branko Milanovic, autor do best-seller "Global Inequality", a combinação de menos crescimento e reformas econômicas em xeque trará consequências políticas imprevisíveis - assim como o aumento da desigualdade nos últimos anos teria alimentado líderes e partidos populistas ou extremistas.>
Deaton e Milanovic explicitaram esse cenário em seminário online promovido pelo EBRD (European Bank for Reconstruction and Development), que reúne 69 países e financia projetos para reformas estruturais.>
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Para a economista-chefe do EBRD, Beata Javorcik, professora em Oxford, assim como na crise financeira de 2008-2010, os pacotes bilionários implantados o redor do mundo na pandemia poderão, mais uma vez, concentrar recursos em poder de elites que controlam a política.>
"Temo que governos corruptos emerjam mais fortes dessa crise", diz.>
Em vários aspectos, a expectativa é que a recuperação econômica pós-pandemia seja em forma de "K", com os mais ricos mantendo-se mais protegidos e beneficiados pelos pacotes de ajuda; e os mais pobres e as minorias perdendo mais.>
Nos EUA, por exemplo, enquanto milhares de pequenos negócios fecharam e 2020 terminou com 10,7 milhões de desempregados, o índice S&P 500 da Bolsa de Nova York subiu 16% no ano; o Nasdaq, das empresas de tecnologia, 44%.>
Segundo Deaton, com dois terços da força de trabalho norte-americana sem diploma universitário e mais voltada ao setor de serviços, os mais escolarizados concentraram renda ao manter-se empregados e trabalhando remotamente.>
As mulheres, que predominam em áreas de atendimento pessoal, também sofreram mais, aumentando a disparidade de rendimento em relação aos homens. Elas também estão tendo mais dificuldade, por causa dos filhos sem aulas presenciais, de trabalhar em casa.>
O economista lembra que, após subir entre 1959 e 2014, a expectativa de vida dos norte-americanos vem caindo nos últimos anos - sobretudo pelo aumento da mortalidade precoce dos mais pobres.>
Em termos políticos, estudo do Brookings Institution sobre as eleições de 2020 nos EUA revelou que áreas mais pobres (2.497 condados que respondem por apenas 30% do Produto Interno Bruto) votaram majoritariamente em Donald Trump uma indicação de que os mais desfavorecidos aceitaram melhor seu discurso populista.>
No final, Joe Biden venceu somente em 477 condados, mas mais populosos e que respondem por 70% da produção econômica norte-americana.>
Para Milanovic, o aumento do endividamento e do déficit em quase todas as economias do mundo também exigirá, em algum momento, a reversão dos gastos estatais - o que pode provocar mais ondas de descontentamento no eleitorado e uma preferência por extremistas ou promessas difíceis de cumprir.>
Na eleição presidencial do último domingo (24) em Portugal, por exemplo, o partido de extrema direita Chega! obteve mais de 500 mil votos e, segundo pesquisas, tem hoje 9% da preferência do eleitorado (era 1,3% em 2019).>
Milanovic destaca também que, ao contrário das crises financeiras recentes ou mesmo das grandes guerras, a pandemia atual é genuinamente um fenômeno global - e ele afeta diretamente os mais pobres.>
"Esse não será um aumento temporário na desigualdade, o que também não nos leva a uma situação de estabilidade no longo prazo.">
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