Publicado em 22 de outubro de 2024 às 20:12
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A tentativa do governo de acelerar o processo de regulamentação do mercado de apostas trouxe à tona lacunas no arcabouço desenhado pelo Congresso, com chancela do Ministério da Fazenda. Ainda antes de o mercado regulado começar a funcionar de fato, no próximo 1º de janeiro, bets já invalidaram decisões da Secretaria de Prêmios e Apostas por meio de recursos nos estados, na Justiça e pela compra de empresas licenciadas.>
A consequência mais clara disso foi o salto nos pedidos de licença na Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro). Até 17 de setembro, quando o governo anunciou que bloquearia neste mês os sites que não tivessem solicitado a permissão federal ou detivessem uma licença estadual, havia 20 bets à espera de aprovação no estado. O número subiu para 77 na última sexta (18).>
A loteria fluminense se movimenta para se firmar como alternativa nacional de licenciamento de bets, sob contestação do governo. A AGU (Advocacia-Geral da União) foi à Justiça para limitar a operação da Loterj ao território fluminense.>
A Loterj conseguiu, no dia 1º de agosto, liminar na Justiça Federal do Distrito Federal para operar em todo o país. No dia 5, o governo conseguiu a derrubada da decisão. Contudo, a autarquia fluminense diz que segue a faturar as apostas no Rio de Janeiro e, por isso, estaria em situação de regularidade.>
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O resultado da disputa judicial da União contra Loterj e as empresas de apostas, segundo advogados consultados pela reportagem, vai definir como funcionarão, na realidade, as regras, eleitas pela Fazenda como a principal ferramenta na tentativa de combater a lavagem de dinheiro, a dependência e a propaganda abusiva ligadas às bets.>
A AGU afirmou que só vai se pronunciar sobre o assunto nos autos do processo. Nos documentos, o órgão cita um risco de competição predatória entre os entes federados para receber os sites de apostas, caso a União perca no imbróglio contra a estatal fluminense. Nesse cenário, os atores teriam incentivos para aprovar leis e portarias mais lenientes com crimes financeiros para atrair casas de aposta.>
A estatal carioca, por exemplo, não requer certidões de "nada consta" de todos os envolvidos na rede societária dos sites de apostas.>
O governo, por sua vez, exige documentações de todas as pessoas ligadas às empresas controladoras e controladas pelo CNPJ que deseja receber a outorga. Pede ainda um plano de negócios detalhado, com projeções financeiras e demonstrações contábeis específicas.>
Em evento organizado pelo grupo Lide, de João Doria, na última sexta, o presidente da Loterj, Hazenclever Lopes Cançado, afirmou que a Loterj já recebe pedidos de licença de empresas de vários estados e até do exterior. Por isso, vai lutar para garantir que as licenciadas atendam jogadores de todo o país, faturando as apostas no Rio de Janeiro.>
"É a mesma lógica dos ecommerces, em que a coleta do imposto ocorre no estado do comerciante", disse Cançado à reportagem. A licença da autarquia fluminense teria validade global, como ocorre com as autorizações de Malta, Curaçao e Anjouan, adotadas, na Europa, por exemplo, para fugir de regulações nacionais.>
O governo federal, por outro lado, diz que a lei exige, para evitar lavagem de dinheiro, um sistema de georreferenciamento da origem da aposta. Essa tecnologia, adotada no Paraná e no Maranhão, permitiria restringir a atuação das bets licenciadas nos estados aos seus respectivos territórios, como define a lei nº 14.790 de 2023.>
Cançado contra-argumenta que o STF (Supremo Tribunal Federal), ao julgar três ações, garantiu aos estados o direito de concorrer com a União, até no âmbito regulamentar. Para ele, a atuação do governo contra a autarquia carioca visa concentrar a arrecadação das apostas, dando prosseguimento ao histórico de monopólio dos jogos pela Caixa Econômica Federal.>
No setor, porém, prevalece a avaliação de que há uma diferença de abordagem entre a Fazenda e a Loterj.>
Empresários do ramo avaliam que das mais de 200 empresas que pediram permissão para atuar com apostas, uma ou duas dezenas devem suportar as regras federais e a competição no longo prazo.>
A loteria fluminense, por sua vez, deve licenciar mais de 50 empresas, operantes em um cenário menos complexo e mais inclinado a deixar as questões criminais sob os cuidados da polícia. Funcionários da própria Loterj dizem, reservadamente, que a orientação dos superiores é de aprovar os pedidos, desde que requisitos mínimos sejam atendidos -11 empresas até agora falharam por não conseguirem entregar a papelada exigida e 12 já têm permissão.>
O caso da patrocinadora do Corinthians, Esportes da Sorte, mostra as principais brechas regulatórias já exploradas pelas bets.>
A empresa foi barrada na lista inicial da Fazenda de bets com permissão temporária para atuar até o fim do ano, mesmo tendo cumprido os requisitos de solicitação de licença federal até 20 de agosto e ter informado a Fazenda das marcas operadas até o último dia 30.>
A SPA nunca se pronunciou oficialmente sobre o caso, mas funcionários da secretaria afirmam, sob condição de anonimato, que as investigações em curso no Pernambuco, na operação Integration, foram o motivo do veto.>
A bet, conhecida também pelos acordos com a influenciadora Deolane Bezerra, driblou a decisão administrativa da secretaria ao comprar o site Apostou.com, já licenciado pela Loterj. Assim, obteve em menos de uma semana a licença para operar no Rio de Janeiro, e, por consequência, no resto do país até o fim do ano.>
A Esportes da Sorte diz que a troca de posse da licença ocorreu "após avançada análise de documentação pela Loterj".>
O processo, porém, levou menos de uma semana, ao passo que a Fazenda pede cinco meses de prazo para avaliar toda a documentação necessária para conceder uma licença.>
O advogado especializado Pedro Porcaro afirma que a compra de uma bet licenciada, em âmbito federal, requereria revisão dos documentos de todas as pessoas da cadeia societária. "Em outros setores, é comum adquirir outras empresas para obter licenças ou credenciais, mas isso requer um processo extenso de adequação.">
A Fazenda diz que a emissão de autorizações e posterior fiscalização em cada estado é de responsabilidade da autoridade local.>
A Esportes da Sorte, no último dia 16, ainda conseguiu reverter, na Justiça, a restrição da SPA. Desde então, a empresa consta na lista das que têm autorização temporária para atuar até o fim do ano por ter cumprido os requisitos da secretaria. O site Megapix obteve decisão liminar da Justiça Federal do DF no mesmo sentido.>
A bet de Deolane Bezerra teve ação semelhante negada pela 14ª Vara Cível Federal de São Paulo, em um indicativo da situação de incerteza.>
Em um terceiro fronte de conflito judicial para a União, diversos setores da economia tentam invalidar, em uma ação no STF, a lei que regulamentou o mercado de apostas. Isso, por si, não jogaria as bets na ilegalidade.>
A AGU alertou, em petição destinada ao ministro responsável pela causa, Luiz Fux, sobre o risco do Brasil seguir como sede do atual mercado cinzento de apostas, se o STF (Supremo Tribunal Federal) acatar o pedido da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo para invalidar a regulação.>
O correto, diz a instituição, seria invalidar a lei sancionada por Michel Temer que liberou as plataformas de apostas no fim de 2018.>
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