Enquanto o impacto político da saída de Lula da prisão ainda se desenha na incerteza, a sociedade não pode ceder à irresponsabilidade de uma narrativa revanchista que só terá peso caso se permita abrir espaço a ela. As falácias não podem ganhar força, tomando uma dimensão capaz de minar os avanços estruturais que, mesmo em meio às instabilidades políticas, estão conseguindo tomar corpo no país depois de tanta penúria.
Não se pode esquecer que o modelo petista, com sua famigerada nova matriz econômica, provocou a ruína fiscal do país. Foram dois anos seguidos, 2015 e 2016, com recessão de mais de 3%. Lula, como ex-presidente, deve encarar os fatos. Atribuir o caos econômico ao atual governo é, no mínimo, desonesto.
No palanque de São Bernardo do Campo, na região do ABC Paulista que testemunhou a gênese do partido há 40 anos, ficou estabelecido pelo discurso do ex-presidente no último sábado que, em sua nova jornada, vai fortalecer o contraponto à agenda econômica do ministro Paulo Guedes. Não seria preocupante se não houvesse tantas armadilhas ideológicas no caminho, potencialmente destrutivas. O jogo não é limpo.
Um pouco de contexto nunca faz mal. Lula acusa a atual equipe econômica de estar comprometida com uma espécie de conluio das classes dominantes que “vai empobrecer ainda mais a população brasileira”. A acusação não é nova, um sofisma ao qual se recorre para incitar uma luta de classes que simplesmente não faz sentido. O governo Lula teve o mérito de proporcionar a ascensão dos mais pobres.
Com acesso a bens de consumo e à educação, uma nova classe média fez a economia brasileira aquecer, beneficiando também justamente os mais ricos, detentores do poder econômico, que puderam produzir mais para um mercado em franca expansão. O resultado? Mais lucro. As elites, portanto, não tinham do que reclamar, porque a lógica é simples: se não há dinheiro nas mãos da população, não há crescimento econômico. A pujança na economia acaba beneficiando a todos.
A questão é que o governo Lula se beneficiou dos bons ventos internacionais, com o boom das commodities. Faltou estruturação econômica, com políticas que fortalecessem o Estado brasileiro. Mesmo firme diante da crise de 2008 em um primeiro momento, o país não resistiu ao tiro de misericórdia da equivocada nova matriz econômica. E chegamos ao ponto em que estamos, após um ciclo de recessão e de falência do emprego, resultado de uma sucessão de erros.
Lula começa a atacar medidas importantes a serem encaminhadas, como as privatizações. Fala em “destruição” de estatais pelo atual governo, quando se sabe que foi nas gestões petistas que muitas dessas empresas se transformaram em máquinas de prejuízo e corrupção. Não é racional mantê-las sob a tutela do Estado, mas é o discurso populista que convém.
O Brasil dá passos para começar a sair do transe que dominou esta década, mais uma perdida. Não é o momento para retrocessos retóricos, principalmente porque é a própria história que mostra que eles não levam a lugar algum.