Nos últimos 20 anos, o Brasil construiu um modelo econômico que teve méritos importantes na redução da pobreza e na ampliação do acesso ao consumo. Milhões de brasileiros passaram a ter acesso a bens, serviços e crédito que antes estavam fora de alcance. No entanto, enquanto parte da população avançou, outra parcela passou a enfrentar um fenômeno menos visível: a estagnação da classe média.
Basta olhar para o mercado de trabalho para perceber essa transformação. Embora a renda média do trabalhador brasileiro tenha atingido níveis recordes recentemente, em torno de R$ 3,3 mil mensais, segundo dados do Ipea baseados na PNAD Contínua, salários mais elevados continuam sendo exceção no país. A grande maioria dos trabalhadores permanece concentrada nas faixas de renda mais baixas.
O problema não está apenas no valor nominal dos salários, mas no seu poder de compra. Há 15 ou 20 anos, uma renda próxima de R$ 10 mil proporcionava um padrão de vida confortável para muitas famílias. Hoje, mesmo profissionais qualificados frequentemente relatam dificuldade para reproduzir o padrão de consumo que seus pais alcançaram com rendimentos equivalentes. Escola particular para os filhos, um bom plano de saúde, prestação da casa própria, condomínio e alimentação consomem uma parcela maior do orçamento familiar ano após ano.
Parte dessa dinâmica está relacionada ao modelo de crescimento adotado pelo país. Ao longo dos anos, o foco esteve frequentemente na expansão do consumo por meio de transferências de renda, crédito e estímulos à demanda. Essas medidas ajudam a movimentar a economia no curto prazo, mas não necessariamente aumentam a produtividade, que é o principal fator por trás do crescimento sustentável dos salários.
E é justamente aí que reside um dos maiores desafios brasileiros. A produtividade do trabalho permanece praticamente estagnada há décadas. Em 2024, por exemplo, ela avançou apenas 0,1%, segundo estudos da FGV. O próprio Banco Central destaca que os ganhos de produtividade seguem modestos e insuficientes para sustentar um crescimento mais robusto da renda no longo prazo. Sem ganhos de produtividade, aumentos de salários são repassados para os preços e resultam em inflação, sem ganhos reais ao longo do tempo, o poder de compra se reduz e é isso que a classe média enfrentou nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, a economia brasileira continua relativamente fechada, com elevada complexidade tributária, insegurança regulatória e um ambiente de negócios que dificulta investimentos de longo prazo. Em muitos setores, a baixa concorrência reduz os incentivos para inovação, automação e qualificação da mão de obra.
O resultado é uma economia fortemente baseada em serviços básicos, comércio e atividades de menor valor agregado. Esses setores são importantes porque geram empregos e oportunidades, mas normalmente possuem um teto salarial mais baixo. Com menos empresas inovadoras e menos investimentos produtivos, surgem menos vagas capazes de remunerar profissionais altamente qualificados, que são obrigados a aceitar ocupações mais simples e de baixa remuneração.
A consequência é uma classe média que trabalha mais para manter o mesmo padrão de vida e, muitas vezes, recorre ao crédito para complementar o orçamento. Sem ganhos consistentes de produtividade, os salários crescem lentamente enquanto os custos continuam avançando.
Recuperar o dinamismo da classe média exige mais do que estimular o consumo. Exige melhorar o ambiente de negócios, ampliar a segurança jurídica, simplificar regras e incentivar investimentos que aumentem a produtividade. É desse processo que nascem os empregos de maior qualidade, os salários mais altos e a verdadeira mobilidade social. Afinal, sociedades prosperam quando o trabalho qualificado é valorizado e quando o crescimento econômico cria oportunidades para subir, e não apenas mecanismos para permanecer no mesmo lugar.
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