Não foi a primeira vez que a Avenida Leitão da Silva, um eixo cada vez mais emblemático das disparidades econômicas e sociais de Vitória, transformou-se em um cenário de guerra, como uma reação a ações policiais nos bairros dominados pelo tráfico, localizados em sua margem oeste. A diferença é que, no episódio do último dia 14, o rastilho de pólvora conseguiu chegar um pouco mais longe, saindo do entorno do Bairro da Penha, na Capital, e chegando até a Serra, em Bairro de Fátima e Hélio Ferraz. Uma mobilização que assustou pelo potencial da violência, com nítidas nuances de terrorismo.
No cerne do caos daquela manhã de sexta-feira estão as facções criminosas, estruturadas em bairros mais vulneráveis à criminalidade da Grande Vitória, com uma cadeia de comando cujo topo da hierarquia se encontra nos presídios. Uma dinâmica que se repete em todo o país e, por isso, teve acertadamente destaque nas medidas do pacote anticrime, sancionado no fim do ano passado.
Uma investigação a qual este jornal teve acesso mostra que a liderança do Primeiro Comando de Vitória, o PCV, que domina a região do Bairro da Penha, passa por uma instabilidade que se reflete no crescimento de episódios violentos na Grande Vitória, como os tiroteios e ataques registrados nos morros da Piedade, Moscoso e Fonte Grande, nas áreas centrais da Capital.
Mesmo que o estopim para a desordem na Leitão da Silva tenha sido a morte de um jovem envolvido com o tráfico durante uma ação policial, não dá para dissociar o caos daquela manhã desse contexto.
Líder do PCV, Carlos Alberto Furtado, o Beto, de 40 anos, está tendo sua autoridade questionada dentro da facção. Ele exerce o comando enquanto cumpre pena na Penitenciária de Segurança Máxima II (PSMAII), em Viana.
De acordo com a lei anticrime, líderes de facções passam a cumprir pena imediatamente em presídios de segurança máxima, sem direito à progressão se mantiverem vínculos com essas organizações.
É de fato um endurecimento, mas ao mesmo tempo constata-se: Beto, o chefão agora questionado, já se encontra nessa situação e, mesmo com o conhecimento das autoridades, conseguiu manter seus domínios sobre a estrutura do crime. Beto é a personificação das falhas do Estado.
O Ministério da Justiça anunciou que iniciará, nas próximas semanas, uma campanha nos presídios do país, que terão as paredes pintadas com a frase “diga não à facção”. A ideia é reforçar os efeitos da lei anticrime, uma estratégia de comunicação que beira a inocência, quando se sabe que essencial é a presença do Estado também nas cadeias, com a racionalização do sistema prisional.
Não é necessariamente prender mais, mas prender melhor. A punição para quem se beneficia estruturalmente da violência, como esses profissionais do crime, deve mesmo ser mais rigorosa.
Caio Matheus da Silva Santos, de 17 anos, morto durante a ação policial no bairro Bonfim, é o próprio exemplo de que a criminalidade só vai deixar de ser encarada como uma opção se essas lideranças deixarem de ser ícones invencíveis, mesmo dentro das prisões. Sempre que um adolescente entra para o mundo do crime, é a sociedade que sai derrotada.
Nessa disputa pela trajetória dos jovens, o tráfico só será menos sedutor se outras oportunidades começarem a se destacar. E, para começar esse processo, é urgente a desarticulação dessas facções.