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Bolsonarista, mas nem tanto

Coronel Quintino: um soldado que desertou do bolsonarismo

Eleito pelo PSL e participante da grave da PMES em 2017, deputado está muito mais próximo a Casagrande e faz críticas a colega de bancada e até a medidas de Bolsonaro. Ele cogita trocar de partido na próxima janela

Publicado em 26 de Outubro de 2019 às 06:00

Públicado em 

26 out 2019 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Coronel Quintino: entre ser do partido de Bolsonaro e apoiar Renato Casagrande Crédito: Amarildo
As aparências, por vezes, nos enganam. Se é assim na vida, por que não seria na política? No Espírito Santo, ao longo deste ano, o caso mais emblemático de corroboração desse ditado está na Assembleia Legislativa, na figura de um deputado eleito no ano passado para seu primeiro mandato político: o Coronel Alexandre Quintino (PSL). Na aparência, um bolsonarista fardado e, literalmente, de alta patente; atrás da farda, um político moderado, muito mais próximo ao governador Renato Casagrande (PSB) e, por incrível que pareça, muito crítico em relação a algumas bandeiras do presidente e do bolsonarismo.
Com 23.330 votos, o coronel da reserva da PMES elegeu-se em 2018, impulsionado por dois fatores: a “onda Bolsonaro” (que beneficiou todos os candidatos do PSL a qualquer cargo país afora) e, intimamente relacionado ao primeiro, o voto corporativista de policiais militares e seus familiares.
O segundo fator também está muito associado à participação de Quintino na traumática greve da PMES em fevereiro de 2017. Foi dele a mais simbólica entrevista daquele movimento: falando ao vivo no estúdio da TV Gazeta Sul, Quintino declarou apoio aos grevistas e alardeou que a panela de policiais (a dele inclusive) estava “vazia”.
O coronel chegou à Assembleia ao lado de outros três deputados do PSL. Entre eles, um colega de farda: o também oficial da reserva Capitão Assumção, que também teve protagonismo no movimento grevista – tendo sido acusado e já condenado pela Justiça. Em janeiro, ambos foram beneficiados pela anistia administrativa concedida por Casagrande e aprovada pela Assembleia, antes da chegada da dupla à Casa. Por tudo isso, muitos, entre os quais me incluo, esperavam um mandato siamês entre os dois. Mas essa previsão não poderia estar mais distante da realidade. As semelhanças terminam aí e, dia após dia, o que tem se aprofundado, na verdade, são as suas diferenças.
Da tribuna da Assembleia, Assumção tem se posicionado como um incondicional defensor de Bolsonaro e manifestado posições extremistas que às vezes flertam com a ilegalidade e a incitação a crimes, na linha de que “violência se paga com violência”. Ao mesmo tempo, radicaliza a cada sessão as críticas e a oposição ao governo de Casagrande, destoante em muitas áreas das bandeiras de Bolsonaro e tachado por Assumção como “extrema esquerda”, “vermelho” etc.
Por seu turno, em vez de bater a panela vazia contra Casagrande, Quintino tem se revelado um fiel aliado e integrante da base do governador: à exceção da nova lei de promoções, votada em abril (de interesse direto da PMES), o coronel tem votado sistematicamente com o governador em todos os projetos importantes do Executivo. A proximidade política se traduz também fisicamente: Quintino é figura fácil ao lado do socialista. Em muitos eventos no Palácio Anchieta, lá está ele na primeira fila, prestigiando Casagrande e sendo prestigiado por ele. Ambos também são unidos por laços geográficos e familiares: além de os dois serem de Castelo, as respectivas esposas são grandes e velhas amigas.
Nos posicionamentos políticos, ao contrário de Assumção, Quintino está longe de ser um soldado-modelo do exército bolsonarista. Não chega a ser um desertor (ao menos por enquanto), mas é aquele recruta que questiona algumas ordens. Quando Assumção ofereceu dinheiro da tribuna a quem matasse um assassino (no dia 11 de setembro), Quintino condenou a fala: “De uma coisa eu tenho convicção: houve um pouco de excesso na fala dele”, opinou, em conversa comigo, publicada em 18 de setembro.

“POSTURA RETRÓGRADA”

Tem mais: pouca gente sabe, mas Quintino é graduado em Sociologia. Isso mesmo: Sociologia, área pela qual Bolsonaro demonstra muito pouco apreço, ao lado da Filosofia e das ciências humanas em geral. Em abril, o presidente anunciou a intenção de “descentralizar” (eufemismo para “cortar”) investimentos nas duas faculdades, em favor de outras que, no seu dizer, dão “retorno imediato ao contribuinte”. Para Quintino, o anúncio revela uma “postura retrógrada”.
"A sociologia não gera só retorno imediato. Consegue antecipar eventos, ou seja, prevê o que poderá ou poderia acontecer"
Coronel Alexandre Quintino (PSL) - Deputado estadual
Quintino inclusive tinha planos de emendar um doutorado este ano, também em Sociologia, mas precisou adiar o projeto em virtude do início do mandato na Assembleia. “Deus mudou o rumo da minha vida.”
Professor por 16 anos em faculdades do sul do Estado, com mãe e três irmãs também profissionais do magistério, o deputado também desaprova o projeto Escola sem Partido e a obsessão de parlamentares “conservadores”, insuflada pelo próprio Bolsonaro, com a chamada “ideologia de gênero” nas escolas.
Quando o plenário manteve o veto de Casagrande a projeto do gênero de Vandinho Leite (PSDB), por 13 votos a 11, no dia 16 de outubro. Quintino ausentou-se do plenário, para não se indispor com eleitores situados nesse nicho. Ele explica:
"“Preferi sair antes da votação do bendito projeto, porque iria votar sim [pela manutenção do veto do governador], aí certamente sofreria sanção do partido e, indubitavelmente, as redes sociais iriam me achincalhar, muito embora esse último fato não me preocupe muito"
Coronel Alexandre Quintino (PSL) - Deputado estadual
Definitivamente, não soa como um típico bolsonarista. O próprio deputado, aliás, relativiza a influência da “onda Bolsonaro” em sua vitória eleitoral no ano passado:
"Tenho enorme satisfação em falar a todos que me conhecem, que já trabalharam conosco, que fomos eleitos não por uma onda Bolsonaro e sim por aqueles que verdadeiramente conhecem nossa caminhada. Daí a minha postura divergente e independência em relação aos demais integrantes do partido"
Coronel Alexandre Quintino (PSL) - Deputado estadual
Considerado tudo isso, será que ainda existe espaço para Alexandre Quintino nas fileiras do partido de Bolsonaro? Ou a farda do PSL já está começando a lhe ficar um pouco incômoda? É bem provável que chegue o momento em que o deputado vai querer trocar de roupa. Ele mesmo confirma tal impressão:
“Se Bolsonaro sair do PSL, fico no partido, sim. Próximo à janela, daqui a dois anos, já não sei”, admite o bolsonarista que está mais para casagrandista, em referência ao período para que deputados troquem de partido sem perder o mandato, a ser aberto apenas em março de 2022. Se ele sair antes disso, o presidente estadual do PSL, Carlos Manato, possivelmente reclamará o mandato na Justiça Eleitoral.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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