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João Baptista Herkenhoff

Comissão Justiça e Paz: 40 anos de luta contra a opressão

CJP procurou ser a voz de quem não tinha voz. Opôs-se a despejos coletivos que mandavam para a rua dezenas de famílias miseráveis e denunciou torturas nas prisões

Publicado em 14 de Agosto de 2018 às 11:41

Públicado em 

14 ago 2018 às 11:41

Colunista

Disse Victor Hugo: “40 anos é velhice para a juventude e 50 anos é juventude para a velhice”. O grande escritor francês referia-se a juventude e velhice dos seres humanos.
Neste artigo, vou tratar dos 40 anos, não de uma pessoa, mas de uma instituição. Vou falar dos 40 anos da Comissão Justiça e Paz de Vitória.
A CJP de Vitória foi criada em 1978 pelos bispos Dom João Batista da Mota e Albuquerque e Dom Luís Gonzaga Fernandes.
O Brasil vivia sob regime ditatorial, pois estava em vigor o Ato Institucional Número 5, que foi imposto ao país em 13 de dezembro de 1968. Não havia garantias, era o primado do arbítrio. Opositores do regime eram torturados e lançados no alto-mar onde alimentavam os peixes.
Nestes 40 anos de existência, a CJP procurou ser a voz de quem não tinha voz. Opôs-se a despejos coletivos que mandavam para a rua dezenas de famílias miseráveis. Denunciou abusos contra presos e torturas praticadas nas prisões
A Comissão Justiça e Paz de Vitória, embora criada sob a égide de bispos, não era uma instituição católica. Entre os seus primeiros membros, havia dois ministros evangélicos – o pastor Claude Labrunie e o pastor Jaime Wright. Nem era mesmo uma instituição integrada, obrigatoriamente, por crentes, por pessoas que professavam a fé em Deus. Um dos membros supunha ser ateu, mas eu contestei seu ateísmo.
Disse-lhe certo dia: “Você não é ateu, querido companheiro. Você tem colocado sua vida em perigo defendendo a justiça. Não é crente quem beija o anel do bispo, ajoelha-se nos bancos da catedral, mas não pratica a justiça e explora o irmão. Tem fé, uma fé autêntica, que não precisa ser explicitada, aquele que faz do zelo pela justiça um Evangelho. Quisera eu ter sua fé.”
Ele ficou emocionado, mas contestou: “Eu não sou isso não.”
Essa pessoa, que estou relembrando, assumiu mais tarde uma fé explícita. Passou a frequentar missas. Trata-se do advogado Ewerton Montenegro Guimarães.
Ocorre-me neste momento a lembrança desse lutador, hoje falecido. Ele não gostava de elogio público. Se estivesse vivo, este artigo lhe traria desconforto. Dirijo meu pensamento a Ewerton pedindo que, lá na mansão de Deus, onde ele está, peça por nós, que ainda estamos aqui.
Nestes 40 anos de existência, a CJP procurou ser a voz de quem não tinha voz. Opôs-se a despejos coletivos que mandavam para a rua dezenas de famílias miseráveis. Denunciou abusos contra presos e torturas praticadas nas prisões. Apelou a advogados voluntários para que defendessem pobres, antes de ser instituída, com muito atraso, a Defensoria Pública.
Fui membro da Comissão Justiça e Paz. Considero isto muito mais importante do que se tivesse sido ministro do Supremo Tribunal Federal.
*O autor é juiz de Direito aposentado e escritor
 

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