Em mais um momento de paralisação do futebol pelo país devido ao agravamento da pandemia do novo coronavírus, um dos principais árbitros da Federação Mineira de Futebol, Igor Benevenuto, de 39 anos, se divide entre o apito, a camisa de árbitro e o jaleco branco de enfermeiro na UPA da cidade de Sete Lagoas (MG), lidando diretamente com pacientes de covid-19.
Essa foi a rotina dele até poucos dias, entre duas funções extremamente desgastantes. Entre cuidar dos doentes e se preparar para apitar uma partida de futebol em longas viagens, reside o medo de se infectar e a responsabilidade da dupla missão. Ele conversou com a coluna direto do Paraguai, onde treina pela Conmebol na pré-temporada 2021 dos árbitros sul-americanos, e falou de experiências importantes para a nossa reflexão.
Em algum momento você interrompeu a atividade de árbitro de futebol para se dedicar somente ao enfrentamento da pandemia como enfermeiro?
Não foi preciso, porque quando iniciei como enfermeiro o futebol estava parado. Quando o futebol voltou, em agosto 2020, eu conciliei as duas profissões. Somente em novembro eu tive que optar, por questões administrativas, e fiquei só no futebol, mas se não fosse isso estaria exercendo as duas profissões até hoje.
Como administrar o desgaste físico e emocional, já que as duas funções são extremamente desgastantes?
Trabalhei sempre no limite. No posto de atendimento, eram muitos pacientes estressados chegando o tempo todo, e no futebol a mesma coisa. Os jogadores estão estressados e preocupados. Eu buscava sempre o ponto de equilíbrio, o que não é fácil. A CBF ajudou muito disponibilizando psicólogo o tempo todo pra mim. A parte física foi outro grande desafio. Às vezes eu virava a noite trabalhando e às vezes tinha que dobrar escala, mas até novembro eu consegui administrar tudo isso.
Você se tornou árbitro FIFA VAR recentemente. Como estão os treinamentos para a próxima temporada?
Realizei esse sonho de me tornar árbitro FIFA VAR, graças a Deus. Hoje estou aqui no Paraguai, na Conmebol, em treinamento de pré-temporada para a temporada 2021. A CBF está programando vários treinamentos de atualização esse ano para aprimorar cada vez mais nosso desempenho nos jogos.
Você sabe de casos de árbitros que pegaram covid-19 durante os jogos em 2020/2021?
Eu tive covid-19 e vários árbitros de Minas Gerais também, o Ricardo Marques foi um deles. Pelo menos uns 30 ou 40 árbitros foram infectados, mas todos tiveram sintomas leves e nenhum precisou ficar internado, talvez pela capacidade física por estar sempre em treinamento.
Como profissional de saúde que convive diretamente com o sofrimento que essa doença causa, qual o recado que você deixa para árbitros e esportistas?
Peço a todos que vivem no esporte e à sociedade em geral não subestimem esse vírus, ele é traiçoeiro e deixa sequelas sérias. Respeitem ao próximo e cumpram as regras. Se as pessoas seguissem as regras, não estaríamos neste caos com tanta gente morta. Vale muito a pena se limitar agora para não sofrer depois. Que Deus abençoe a todos.