Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Por que os direitos humanos incomodam tanto?
Reflexão natalina

Por que os direitos humanos incomodam tanto?

Neste 2019 prestes a se encerrar, alguns conceitos foram muito maltratados e deturpados no Brasil. Poucos o foram tanto quanto o de “direitos humanos”

Publicado em 25 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

25 dez 2019 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
A ideia de direitos humanos está sendo rasgada no Brasil Crédito: Amarildo

Um casal de jovens brancos se dirige para uma festa à noite, em um bairro de classe média-alta, quando é parado, sem motivo aparente, em uma batida policial. Os dois são encostados contra a parede e revistados com truculência. A garota tem a bolsa revirada e é apalpada por um policial. Sem nenhuma acusação, os dois são levados à delegacia.

No acampamento infantil de uma colônia de férias, numa clareira no meio da mata, crianças dormem em círculo em barracas e em sacos de dormir. De repente, um grupo de extermínio aparece e, antes que possam escapar, ou mesmo se dar conta do que está acontecendo, as crianças são executadas.

Em uma igreja de orientação católica, uma celebração é realizada pacificamente, reunindo dezenas de fiéis, quando um grupo armado invade o templo, sobe no altar, destrói todas as imagens de santos, derruba e urina na pia batismal. Em um templo evangélico vizinho, agem de modo semelhante. No lugar das imagens, rasgam e queimam a Bíblia. Nas paredes, deixam a pichação: “Só o NOSSO Deus liberta”.

Um jovem “bem-nascido”, filho de juiz e empresária, envolve-se com drogas ilícitas e começa a traficar entorpecentes. A polícia o localiza e o detém. Sem direito a defesa, ele é enviado para um presídio onde os detentos são mantidos em condições degradantes. Ele ainda não tem culpa formada nem condenação. Aliás, passam-se os meses, os anos, e seu processo nem sequer foi julgado. O rapaz divide com 20, 30 homens uma cela projetada para seis. Para sobreviver no presídio, precisa se juntar a uma facção criminosa, à qual passa a dever favores. Do contrário, já estaria morto.

Na calada da noite, os moradores de um condomínio de luxo em “bairro nobre” são despertados pelo som de disparos e surpreendidos por uma operação policial. A inteligência das forças de segurança sabe que ali se esconde um dos chefões do tráfico de drogas na cidade, mas não sabe exatamente em qual dos apartamentos. Os homens invadem o condomínio e começam torturando os porteiros. Sem mandados judiciais específicos, arrombam as portas e invadem, um a um, o templo mais sagrado e inviolável das famílias: o lar. Esculacham e torturam os moradores, a fim de obter a informação: onde é que ele está? Em desespero, as crianças choram alto.

Com seus comparsas, o traficante enfim aparece, mas resiste. A polícia enfim prevalece. Na troca de tiros, um morador inocente é atingido por uma bala perdida. Morre na hora. No dia seguinte, vendo o noticiário, muitos aplaudem a operação: “Tá certo! Polícia tem mesmo que entrar com tudo, tocando o terror nesses condomínios de luxo cheios de bandidos e vagabundos!”

O que são todas essas hipotéticas situações?

Resposta: flagrante e inadmissível violação dos DIREITOS HUMANOS inalienáveis de todo e qualquer indivíduo. Direitos que incluem a liberdade (inclusive de expressão e de crença religiosa), a educação, o trabalho, a dignidade e, acima de tudo, o direito à vida. Direitos que não valem só para bandidos, que não são direitos só “dos manos”. São para mim, para você, para todos nós.

Mas as situações acima não acontecem de verdade no Brasil, acontecem?

Não, FELIZMENTE elas não acontecem no Brasil.

Vamos dizer o que INFELIZMENTE acontece DE VERDADE no Brasil:

Um casal de jovens negros se dirige para um baile funk à noite, em um bairro de baixa renda, quando é parado, sem motivo aparente, em uma batida policial. Os dois são encostados contra a parede e revistados com truculência. A garota tem a bolsa revirada e é apalpada por um policial. Sem nenhuma acusação, os dois são levados à delegacia.

Em uma praça no centro da cidade, debaixo de uma marquise, crianças dormem em círculo sobre pedaços de pano e papelão. De repente, um grupo de extermínio aparece e, antes que possam escapar, ou mesmo se dar conta do que está acontecendo, as crianças são executadas.

Em um centro de umbanda, uma celebração é realizada pacificamente, reunindo dezenas de frequentadores, quando um grupo armado invade o templo, destrói o altar, urina no terreiro, quebra todas as imagens de santos, chuta todas as oferendas. Nas paredes, os agressores deixam a pichação: “Só Jesus salva”.

Um jovem nascido e criado na favela envolve-se com drogas ilícitas e começa a traficar entorpecentes. A polícia o localiza e o detém. Sem direito a defesa, ele é enviado para um presídio onde os detentos são mantidos em condições degradantes. Ele ainda não tem culpa formada nem condenação. Aliás, passam-se os meses, os anos, e seu processo nem sequer foi julgado. O rapaz divide com 20, 30 homens uma cela projetada para seis. Para sobreviver no presídio, precisa se juntar a uma facção criminosa, à qual passa a dever favores. Do contrário, já estaria morto.

Na calada da noite, os moradores de uma favela são despertados pelo som de disparos e surpreendidos por uma operação policial. A inteligência das forças de segurança sabe que ali se esconde um dos chefões do tráfico de drogas na cidade, mas não sabe exatamente em qual dos barracos. Os homens invadem a comunidade. Sem mandados judiciais específicos, arrombam as portas e invadem, um a um, o templo mais sagrado e inviolável das famílias: o lar. Esculacham e torturam os moradores, a fim de obter a informação: onde é que ele está? Em desespero, as crianças choram alto.

Com seus comparsas, o traficante enfim aparece, mas resiste. A polícia enfim prevalece. Na troca de tiros, um morador inocente é atingido por uma bala perdida. Morre na hora. No dia seguinte, vendo o noticiário, muitos aplaudem a operação: “Tá certo! Polícia tem mesmo que entrar com tudo, tocando o terror nessas favelas cheias de bandidos e vagabundos!”

Com as primeiras situações, você se sentiria indignado? Com as segundas situações, as reais, você se sente indignado? Qual é a diferença?

Todas representam uma afronta aos direitos de todo ser humano, independentemente de crença, credo, cor, idade, gênero, endereço e posição social.

Neste 2019 prestes a se encerrar, alguns conceitos foram muito maltratados e deturpados no Brasil. Poucos o foram tanto quanto o conceito de “direitos humanos”.

Natal é tempo de reflexão. Deixamos esta para os leitores.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Ônibus do Sistema Transcol
Transcol e Aquaviário serão gratuitos neste domingo de eleições
Vagas de estágio na Suzano para estudantes de níveis técnico e superior
Suzano abre inscrições para programas de estágio com mais de 170 vagas; há oportunidades no ES
A idosa foi vista pela última vez no sábado (19)
Corpo de idosa com Alzheimer desaparecida é encontrado em São Mateus

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados