Nas últimas três eleições, de 2014 a 2018, os candidatos petistas viram estrelas no Espírito Santo (e não de um jeito positivo). O Estado se estabeleceu como um colégio eleitoral muito refratário ao PT. Em 2016, Perly Cipriano teve 3,5% dos votos para prefeito de Vitória, e o partido não elegeu nem sequer um vereador no município. Em 2018, Bolsonaro teria vencido em 1º turno na capital capixaba; no 2º turno, contra Haddad, teve quase ⅔ dos votos válidos na cidade.
Talvez por esses fatores, a candidatura de João Coser a prefeito nasça meio desacreditada por parte do mercado político capixaba. Mas, mudando-se o ângulo de análise, pode ser um grande erro subestimar o potencial do ex-prefeito nesse pleito. Apesar da descrença de muitos, Coser pode surpreender e mostrar-se realmente competitivo, por uma combinação de fatores tanto da conjuntura nacional como da micropolítica da Capital.
Em primeiro lugar, é preciso partir da premissa de que a eleição de Vitória é uma eleição de dois turnos. E é fato que, neste ano, será decidida em dois turnos. Além disso, no 1º turno, tende a ser uma disputa com votação pulverizada. Hoje, há 12 partidos predispostos a lançar candidato próprio a prefeito. Destes, calculo que de 8 a 9 devem permanecer no páreo – o que ainda é um número considerável. Numa eleição como essa, é plausível que um candidato chegue ao 2º turno com 20% dos votos.
Se o ano fosse 2016, eu não hesitaria em carimbar: Coser entra sem a menor chance. O antipetismo estava no auge. Mas 2020 não é 2016. O próprio ex-prefeito aposta em uma eleição pouco “nacionalizada”, com baixa influência da disputa político-ideológica nacional. Se realmente for assim, ele lucra. Não sofrerá tanto com a rejeição ao PT e à esquerda de modo geral, mantida por boa parte do eleitorado capixaba, e poderá ater a sua campanha a um debate técnico, de propostas para a cidade, defendendo um legado pessoal que pode ser considerado respeitável.
Por outro lado, se a eleição for realmente ideologizada, refletindo a polarização política nacional entre a esquerda e a direita bolsonarista hoje assentada no poder, Coser também pode ser beneficiado como representante do PT na disputa. Primeiro por causa do desgaste acelerado do bolsonarismo, com o presidente atualmente aprovado por só um terço da população.
Segundo porque, num contexto como esse, de “disputa nacionalizada”, o ex-prefeito pode garantir não só aquele “voto ideológico”, enraizado, de eleitores petistas, como também agregar aliados e eleitores de outras tendências de esquerda e até de centro. Pode atingir, numa frente de esquerda, eleitores que não vão querer eleger um prefeito de direita. E assim bater naqueles 20%.
Além do “voto ideológico”, há o “voto geográfico”. Historicamente, o PT alcança melhor votação na periferia da cidade. Nesse aspecto, a transferência de domicílio eleitoral do deputado federal Amaro Neto de Vitória para a Serra, em abril, também pode favorecer a candidatura de Coser. O petista pode batalhar por votos que tenderiam a ir para Amaro nesse segmento social de baixa renda, onde se concentrou o eleitorado do apresentador de TV contra Luciano Rezende (Cidadania) em 2016.
Falando no atual prefeito, o candidato de Luciano é o deputado estadual Fabrício Gandini (também do Cidadania), que é de Jardim Camburi e, assim como o mentor político, não tem tão boa penetração em bairros de classe média-baixa (C-, D e E), situados nas Grandes Maruípe, Santo Antônio e São Pedro. Para “adentrar” essas regiões da cidade, o candidato da situação depende da intermediação de lideranças ligadas a vereadores ou à gestão de Luciano (e nisso, sim, pode ampliar seu território político, pois vem montando uma ampla rede de líderes comunitários aliados).
Por sua vez, pelo menos no pontapé inicial, os candidatos situados no lado direito do campo tampouco circulam tão facilmente na periferia de Vitória: Halpher Luiggi (PL), Mazinho dos Anjos (PSD), Coronel Nylton (Novo), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Capitão Assumção (Patriota). Este último é o principal representante do bolsonarismo, que encontra maior adesão, proporcionalmente, entre eleitores de renda mais alta – embora também possa ser favorecido caso prevaleça o já citado cenário de “nacionalização da disputa”. Quanto a Pazolini, pode ter essa lacuna compensada por Amaro Neto (também do Republicanos), a depender da participação do aliado nessa campanha.
Já João Coser, na linguagem política, é um candidato que “sobe bem o morro” e forma núcleos políticos com facilidade. Esse trunfo, porém, pode ser neutralizado dependendo da evolução da pandemia, quer dizer, se a campanha ficar muito limitada no quesito “corpo a corpo”.
Por fim, é importante ressaltar: a direção nacional do PT deve investir pesadamente na campanha de Coser. Se é um erro subestimar o ex-prefeito, é um erro ainda maior subestimar a máquina partidária e o poder financeiro do PT. Basta lembrar que o partido tem direito à maior cota do fundo eleitoral. Serão R$ 201,2 milhões, quantia que será distribuída, a critério da direção nacional, entre os candidatos da sigla pelo país nas eleições municipais. E a direção está priorizando candidatos a prefeito nas capitais, como Coser.
Em agosto do ano passado, tive uma conversa com o ex-prefeito, sobre outro tema. Aproveitei para sondá-lo sobre eventual candidatura sua a prefeito em 2020, então uma ideia distante. Coser me respondeu àquela altura que até toparia entrar, desde que obtivesse, da direção nacional do PT, plenas garantias de que sua candidatura seria abraçada como prioritária. Na prática, isso significa injeção maciça de recursos e presença de influentes figuras nacionais do partido em Vitória. Bem, as garantias lhe foram dadas.
PERDEU A VERGONHA
Em 2014 e 2018, últimas eleições que disputou, Coser pareceu um petista envergonhado. Em 2014, na campanha ao Senado, ele chegou a esconder até o vermelho petista do seu material de campanha. Não levou nenhuma das duas. Desta vez, por entrevistas recentes que deu, inclusive a esta coluna, fica claro que “assumirá” o PT com orgulho. Será um bom teste para se medir o real tamanho da rejeição ao partido em Vitória hoje em dia.
POSSÍVEL CHAPA PURO-SANGUE
Tanto é correta a nota anterior que Coser cogita até vir liderando uma chapa puro-sangue a ser lançada pelo partido. O ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Vitória Reinaldo Bolão (PT), hoje um dos aliados mais próximos do ex-prefeito, pode ser vice em sua chapa.
CANDIDATOS A VEREADOR: VETERANOS E FILHA
Após o fiasco da última eleição municipal, o PT pretende fazer de um a dois vereadores em Vitória. Para isso, montou uma chapa proporcional que mescla veteranos, como os ex-vereadores Marcelão e Alexandre Passos (ambos de Jardim da Penha), com sangue novo. Nesta categoria entra a filha de João Coser, Karla Coser, candidata de primeira viagem. Por sinal, além da própria candidatura, a prioridade do ex-prefeito nesse pleito é a eleição da filha a vereadora. Os aliados de Coser estão em peso na campanha dela.
Em tempo: Bolão não será candidato a vereador. Há quem veja nisso um indicativo de que está se guardando para ombrear mesmo com Coser na majoritária, completando a chapa puro-sangue preparada pelo PT.
ANA PETRONETTO É CANDIDATA
A chapa de vereadores do PT também reserva uma surpresa: a candidatura da professora Ana Maria Petronetto Serpa, meio-termo entre "veterana" e "sangue novo". Muito conhecida na cidade, ela foi secretária de Assistência Social de Vitória durante os oito anos de administração de João Coser (2005/2012) e fez um trabalho muito reconhecido à frente da pasta. Mas nunca antes disputou uma eleição.
QUER MARQUETEIRO DE FORA
Se depender de Coser, a preferência dessa vez é pela contratação de um marqueteiro de fora do Estado, com ideias novas, para fazer a sua campanha aqui. Mas isso, é claro, dependerá do volume de recursos a ser repassado à sua campanha pela direção nacional do PT.