Com o nome homologado pelo PT para disputar novamente a Prefeitura de Vitória, o ex-prefeito João Coser garante: "Estou tão motivado quanto da primeira vez". Nesta entrevista à coluna (a primeira entrevista detida de Coser em anos), ele assevera, para quem achava que pudesse estar blefando ou só querendo ajudar a direção nacional do PT a preparar o partido para 2022: "Minha candidatura é pra valer e tenho condições de ganhar a eleição".
O ex-prefeito compara a realidade do período em que governou a Capital (de 2005 a 2012) com o cenário atual, fala de pandemia, de crise econômica, de antipetismo, de austeridade fiscal, dos governos Lula e Dilma, de seu legado na cidade e de como seria administrar Vitória com um adversário do PT na Presidência da República (completamente o oposto de seus dois mandatos). A propósito da Presidência, Coser não mede críticas a seu atual ocupante. "Nem precisava ser o Haddad. Qualquer outro que tivesse sido eleito, o Brasil não estaria essa esculhambação que está com Bolsonaro."
O ex-prefeito aposta que a próxima eleição municipal, por ora mantida em outubro, não será "nacionalizada". E avalia que quem colar a própria imagem em Bolsonaro só terá a perder. "Duvido que, hoje, alguém o queira no palanque". Confira a entrevista completa:
Muita gente reagiu com surpresa à notícia sobre a confirmação oficial da sua candidatura: “Ué, o Coser é candidato de novo?” Essa surpresa das pessoas o deixa surpreso?
Eu sou agente político desde muito jovem. Desde os 20 anos de idade, participo da vida pública. Comecei nas Comunidades Eclesiais de Base, nos sindicados e depois no partido e nos mandatos. Já disputei 10 eleições, quase sempre vitoriosas. Perdi uma para prefeito em 1992, duas para senador e a última [em 2018], para deputado federal. Já estou há 40 anos na atividade política formal, sendo 24 anos de mandatos. Então, é natural para quem está nesse caminho que eu seja candidato. Nas outras profissões também funciona assim, para quem tem saúde e disposição para trabalhar. Eu estou com muita vontade, muita disposição e muita energia. A minha atividade política está no sangue, está na veia. Mas entendo os amigos e as pessoas não tão próximas que tinham a impressão de que eu estava deixando para outras pessoas. Isso é muito natural. Estou tranquilo e muito motivado.
Recordo que, em 5 de agosto de 2018, um domingo, após a Executiva Estadual decidir lançar a candidatura de Jackeline Rocha ao governo do Estado, encontrei o senhor na sede do PT, no Centro de Vitória. Falando com franqueza, o senhor parecia abatido. Depois, fez uma campanha tímida a deputado federal. E agora encontra esse novo ânimo. O que mudou nestes últimos dois anos?
Naquele momento eu tive uma limitação de saúde, física e psicológica. Eu de fato não estava no meu melhor momento. Eu trabalhei muito para a Jackeline, mas, de fato, para deputado federal, fiz uma campanha mediana. O ambiente político também estava ruim, com um cenário nacional muito desalentador. Mas tudo isso já está superado. Hoje estou muito bem, física e psicologicamente. Admito que falei para algumas pessoas que não disputaria mais eleições, mas isso de fato é passado. Hoje estou em outro momento. Além disso, tem todo um chamado para que pessoas como eu, com experiência e estrada, se coloquem novamente. A administração pública não é para amadores. É preciso ter preparo e ter acúmulo. E amor pela cidade de Vitória, o que tenho profundamente. Então a minha volta se dá muito por isso também.
Falando nesse “chamado”, a sua candidatura atende a alguma resolução ou determinação da direção nacional do PT, para que o partido lance em todas as capitais a figura de maior projeção nos respectivos Estados?
Eu tive, sim, um chamado do ex-presidente Lula e da presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, para que eu colocasse o nome, assim como outros quadros do partido que já tiveram bons mandatos de deputado ou prefeito. Temos convicção do legado do PT, do quanto foram importantes os governos Lula e Dilma para melhorar a vida das pessoas, e estamos vendo tudo isso ir por água abaixo agora. Lula falou isso: “Temos que defender o país”. Além disso, nós tivemos aqui em Vitória duas gestões muito promissoras do ponto de vista da estruturação nas áreas de transporte, saneamento, drenagem, saúde e educação, com muitas ações sociais e obras estruturantes. Precisamos botar a cidade para caminhar. A cidade deu uma parada grande. Tenho a obrigação de defender o meu legado, tudo o que fiz aqui. Então tem o legado nacional e tem o legado meu. Mais do que isso: tem o olhar para a frente. Minha experiência me dá condições de, olhando para o passado, para o que fiz, olhar para os desafios do futuro, que não serão poucos. No pós-pandemia, as pessoas todas vão voltar com mais dificuldade. O comércio, a indústria… a economia estará muito maltratada. O próximo prefeito tem que cuidar das pessoas do ponto de vista da assistência e da atividade econômica. A prioridade número um não poderá ser pensar em grandes obras, e sim como fazer para que as pessoas continuem vivendo na cidade com renda, com emprego e com seus negócios evoluindo, além de todo um trabalho de assistência física e mental. A nova gestão precisa ter um acúmulo de experiência e de boa vontade muito grande. Cuidar das pessoas e cuidar dos servidores públicos, que fazem o atendimento na ponta. Pensar no ser humano, não só no físico da cidade. Não será uma gestão de grandes obras, mas de grande cuidado com as pessoas.
Então a candidatura é pra valer mesmo, é pra vencer a disputa, ou se presta, principalmente, a ajudar o PT a se reprojetar e remobilizar a militância visando à eleição presidencial de 2022?
Olha, ganhei as eleições de 2004 e 2008. No início da primeira, eu sequer pontuava nas pesquisas. Comecei com 3%. Minha candidatura é pra valer. Estou muito motivado, com muito desejo e muita vontade. Tenho condições de ganhar, de ir para o segundo turno e incorporar outros partidos. Mais que isso: tenho condições de fazer um bom governo para a cidade de Vitória. Tenho certeza de que, com minha experiência, acumulo as condições para ser prefeito novamente e fazer com que a cidade dê passos importantes num momento de desafio que carece de experiência. Logicamente também sou uma liderança nacional, então é evidente que tenho condições e preparo para defender aqui o projeto nacional. Porém, como disse, mais do que olhar para trás, vamos olhar para a frente.
Por causa da pandemia, será uma campanha bem diferente...
Sou de rua, sou de comércio, de feira, de abraçar… Isso está criando uma dificuldade, evidentemente… Isso me faz muita falta. Não sou de discurso, mas sou bastante de rua. Estou trabalhando com assessores, para ver como suprir essa dificuldade. A campanha será num novo modelo. Essa é a maior interrogação: como fazer a campanha sem poder ir para as ruas e abraçar as pessoas? Agora, vou fazer um grande debate com a cidade e conversar com todos os segmentos. Estou com salas virtuais abertas. Quero chegar ao registro da candidatura com um projeto de governo muito bem elaborado, pensando o país e a cidade que teremos a partir de 2021. Estou com toda a motivação que tive na primeira eleição.
A respeito desse projeto: o senhor foi prefeito de 2005 a 2012, em uma conjuntura política e econômica muto diferente. Quais são as propostas novas para a cidade do João Coser versão 2020 que a cidade já não viu nos seus oito anos de administração?
Eu não vou ainda apresentar programa de governo. Isso está sendo acumulado com lideranças de vários setores. Nós estamos nos reunindo semanalmente e fazendo debates setoriais. Mas o que posso te dizer é que, com certeza, não será uma candidatura só voltada para o legado. O que nós fizemos, a cidade já incorporou. Encontro na rua muitos elogios. Fizemos 12 escolas e oito unidades de saúde. Fizemos o Tancredão, a nova Praça do Papa, a ampliação da Ponte de Camburi, da Ponte da Passagem e da Fernando Ferrari. Toda a parte de drenagem de Bairro República, Mata da Praia, Jardim Camburi e Maruípe. Toda a parte de saneamento do Centro à Grande São Pedro. Fomos a primeira capital do Brasil com estrutura para coleta de todo o esgoto. Então, fizemos muita coisa e, naturalmente, sinto muito orgulho de tudo isso. Essa experiência foi importante para agora fazermos mais num momento de dificuldade. O grande desafio será como fazer para que as pessoas voltem a ter a sua condição social estruturada. Por exemplo, no meio empresarial, como a prefeitura poderá ajudar para que o microempresário possa voltar a manter o seu negócio? Precisaremos ter uma política pública especializada para o idoso. E uma política específica de saúde mental, pois surgirão muitos problemas psicológicos a partir do sofrimento provocado pela pandemia. Há, ainda, toda a parte de inovação tecnológica: como é que a cidade avança nisso? Esses serão os desafios, mais que fazer uma avenida, mais que fazer uma ponte. Você vai ter que ser mais próximo das pessoas: cuidar da cidade no sentido físico, da limpeza e da manutenção, mas cuidar mais das pessoas. As obras estruturantes serão em menor quantidade e com recursos externos.
Até porque não haverá dinheiro... De 2005 a 2012, o senhor governou Vitória em um período de estabilidade econômica, no Brasil e no mundo. Agora, com a pandemia, o Brasil deve amargar, em 2020, a maior queda do PIB em um século, sem contar períodos de guerra. Quem quer que seja eleito, terá que administrar um orçamento de guerra a partir de 2021. A despreocupação, para não dizer negligência, com a austeridade fiscal no governo Dilma, foi um dos fatores que levaram à recessão econômica em 2015/2016, o que facilitou, em última análise, o impeachment dela. O PT está pronto para fazer um governo de austeridade fiscal em Vitória?
Eu estou pronto e o PT com certeza está totalmente pronto para isso. No caso específico da Dilma, não foi exatamente um descuido dela. Logo após a reeleição dela em 2014, o Aécio Neves subiu à tribuna do Senado e disse: "Nós não aprovaremos mais nada no Congresso, nenhuma medida do governo Dilma, mesmo que para isso a gente tenha que quebrar o país". A retirada da Dilma e o desmonte do governo Dilma não foram por acaso. Foi feito de caso pensado, arquitetado pela direita e por setores da elite do país. O golpe se deu a partir daquele pronunciamento do Aécio e o país quebrou a partir daquele pronunciamento. Não foi por causa de medidas contrárias à austeridade fiscal tomadas pelo governo Dilma, até porque a Dilma era, dos petistas, a mais economicista. Voltando para cá: agradeço a Deus, pois no meu governo a economia mundial foi bem. A crise de 2008 foi difícil, tive que paralisar várias obras. Mas tive muita ajuda do governo federal. Em oito anos, investimos R$ 1 bilhão em Vitória. Trinta por cento disso eu consegui com o governo federal, através do PAC, incluindo todo o trabalho de saneamento em São Pedro. Eu tinha uma porta aberta no governo federal. Agora, estamos pagando um preço no Brasil, e nossa queda será maior que no mundo, por causa da irresponsabilidade do governo federal. Se Haddad estivesse lá, não teríamos hoje 40 mil mortes, pois ele teria feito o inverso do que o presidente atual está fazendo. Haddad teria feito mais medidas de caráter social, e o que tinha que ter fechado, ele teria fechado desde o início. Essa política [de isolamento social] deveria ter sido coordenada pelo governo federal e pelo Ministério da Saúde. Aqui no Brasil foi feito o contrário. E, quando o ministro foi contra, ele demitiu o ministro. O país está indo ladeira abaixo por decisões equivocadas do governo federal. Nosso país está na contramão da História. Estamos perdendo mais vidas, nosso sofrimento está sendo e será muito maior, e nossa recuperação levará muito mais tempo. Outros países passaram por isso por três meses. Aqui, serão no mínimo seis meses, pela falta de ações do governo federal. Quando você tem um problema, é importante que você corrija logo. Nós sabíamos que havia um problema e que era importante que se fizesse logo o isolamento. O presidente fez o contrário: foi para a rua comer pastel. Quando o pai dá mau exemplo, é muito difícil pedir ao filho para ter bom comportamento.
A propósito desse “novo pai”, de 2005 a 2012, o senhor governou durante as presidências de Lula e de Dilma, presidentes amigos e que, como o senhor mesmo lembrou, o ajudaram com recursos federais. Agora, a conjuntura é radicalmente diferente. Supondo que o senhor seja eleito, como imagina que será governar Vitória tendo um presidente antipetista no Planalto?
O presidente da República está acabando com as cidades brasileiras. Não há por parte dele, mesmo para prefeitos aliados, nenhuma ação que garanta melhoria da qualidade de vida das pessoas. Não acredito que, em 2021 e 2022, poderemos contar muito com a ajuda do governo federal. Teremos que contar com recursos próprios e algum recurso estadual. Acho que Casagrande está muito bem e vai nos ajudar na medida do possível. E vou apresentar os projetos em Brasília. Mas o que estamos percebendo é que não há nenhum sinal, mesmo no período pré-pandemia, para obras estruturantes e políticas necessárias, a não ser no caso da saúde, que ele fez porque o Congresso aprovou uma lei e em função de uma pressão do Centrão. Ele está fazendo quase que forçado um aporte de recursos para que os Estados e municípios possam enfrentar a pandemia. Fora isso, não há nenhum aporte já hoje para projetos estruturantes. Também por isso, terá que ser uma administração mais modesta, com menos obras. Talvez alguma coisa com recursos de financiamento. E fazer a gestão da cidade com a competência do próprio município. Como Vitória é uma cidade bem estruturada, precisa mais de políticas públicas do que de obras estruturantes. O mais importante aqui é cuidar das pessoas, na minha avaliação.
A rejeição ao PT ainda é muito forte em setores da sociedade capixaba. Em 2018, em Vitória, Bolsonaro teria derrotado Haddad em primeiro turno. O senhor acha que é possível derrotar o antipetismo, hoje, numa eleição municipal?
Eu acredito que sim. Admito que ele existe. Admito que ele está mais aflorado do que quando disputei as eleições municipais. Mas, ao mesmo tempo, com o governo Bolsonaro e todos os seus desmandos, as mentiras são tão deslavadas que vão sendo desmontadas. A última foi agora, com a recriação do Ministério das Comunicações só para dar para o genro do Sílvio Santos. Não ia negociar com partidos, mas agora negocia com o Centrão e está entregando bilhões e até o Banco do Nordeste. Como foi feito um antipetismo com muita mentira e muita coisa falsa, as pessoas vão percebendo e entendendo isso. As pessoas me abordam e me dizem isso, mostram arrependimento. Não precisava ser Haddad, poderia ter sido outro o eleito: o Brasil não estaria essa esculhambação que está aí. O antipetismo foi uma coisa construída, não é real. Do que colocam na conta do PT, praticamente nada é verdade. Então criou-se um fantasma, como se tudo que aconteceu naquele momento fosse culpa do PT, e não analisam o comportamento dos outros agentes políticos naquele momento. Vou respeitar quem discorda, quem pensa diferente. Agora, gostaria que muita gente que discorda e que pensa diferente dissesse o porquê, pois muita gente repete como papagaio. Aí eu pergunto à pessoa: “Tá, mas o que foi que o governo Lula fez que te prejudicou? Foi o crédito? Foi o pleno emprego?" De 75% a 80% das pessoas não sabem responder. Diz que é contra porque leu, porque viu na mídia, porque ouviu falar. A elite brasileira e grupos importantes de formadores de opinião fizeram uma barreira contra o PT. Veja só, as pessoas criticaram tanto o Bolsa Família. Agora, na pandemia, o atual governo está fazendo uma distribuição de dinheiro sem critério nenhum e que inclusive não virou uma política pública. Está sendo só um auxílio emergencial, sem critério algum, dando dinheiro a quem não precisa. E as mesmas pessoas que defendem isso criticam o Bolsa Família. É disso que estou falando.
Todas as pesquisas recentes mostram que o presidente Jair Bolsonaro tem hoje o apoio de, no máximo, 30% da população. O senhor pensa que uma candidatura do PT em Vitória, hoje, pode se beneficiar desse derretimento precoce do governo Bolsonaro?
Acho que colar uma candidatura na imagem do Bolsonaro é um desserviço à sociedade e à própria candidatura, porque não tem da parte dele gestos que você possa defender com dignidade. Em vez de comida, ele dá armas. Em vez de proteção ambiental, dá desmatamento. Em vez de vacina, dá cloroquina. Só defende o Bolsonaro quem é radicalmente de extrema-direita, e então é cego, ou quem não tem formação e não parou para pensar no que realmente significam as medidas do governo dele. É um negócio maluco! Ainda tem defensores. Trinta por cento não é pouco num projeto. Mas, nos outros 70%, há matizes de centro, de centro-esquerda e centro-direita. E aí os eleitores vão optar por um projeto local. O debate se dará em torno das questões locais e do que fazer para melhorar a vida das pessoas na cidade de Vitória. Não acredito que será uma campanha nacionalizada. Se ele estivesse bombando, muita gente ia colar nele como quando ele era candidato e estava fazendo sucesso, como fizeram os governadores do Rio, de Minas e de São Paulo. Mas, de lá para cá, no governo, ele só fez bobagem. Se você perguntar hoje, não acredito que algum candidato vai querer Bolsonaro no seu palanque não.