O ex-deputado federal Nilton Baiano reprova as palavras do seu irmão mais velho, o prefeito de Itabuna, Fernando Gomes (PTC), autor da polêmica declaração de que no próximo dia 9 reabrirá o comércio da cidade “morra quem morrer”. “A declaração é inoportuna”, opina Nilton.
Nesta quarta-feira (1º), em entrevista à imprensa, o prefeito de Itabuna anunciou o prolongamento de medidas restritivas ao comércio no município por mais sete dias, devido ao alto índice de ocupação dos leitos de UTI para pacientes com a Covid-19 na cidade. Foi quando deu a declaração que repercutiu negativamente no Brasil inteiro:
“Eu não posso abrir uma coisa que eu não tenho cobertura. Então, na dúvida, por causa dos nossos morrendo por causa de um leito em Itabuna, eu vou transferir essa abertura. [...] Mandei já fazer um decreto e no dia 9 [de julho] abre, morra quem morrer”, afirmou o prefeito.
A pedido da coluna, Nilton Baiano, que é médico, comentou as aspas do irmão mais velho:
"Acho que a declaração é inoportuna. Agora, tem que saber em que contexto ele falou. Eu, como médico, não posso aceitar declaração que 'morra quem tem que morrer'."
Por outro lado, Nilton Baiano considera equivocado o enfrentamento à pandemia do novo coronavírus baseado em isolamento social e restrições ao comércio:
“No meu entendimento, o tratamento da epidemia está errado. Já temos quatro meses de confinamento e até agora os números não caíram. A economia não pode ficar eternamente parada. Torço para que ele [o prefeito de Itabuna] abra o comércio e ninguém venha a morrer.”
A HISTÓRIA DE NILTON BAIANO
Com 81 anos completados na véspera da declaração (30), Fernando Gomes Oliveira é irmão mais velho de Nilton Baiano, 78 anos, cujo nome de batismo completo é Nilton Gomes Oliveira. Também nascido em Itabuna, cidade do sul da Bahia, a 426 quilômetros de Salvador, Nilton Baiano construiu sua trajetória política inteira no Espírito Santo, usando esse “codinome político”. No início de sua trajetória, havia outro deputado, muito popular, chamado Nilton Gomes.
Curiosamente, Nilton Baiano é médico, enquanto o irmão envolvido nessa polêmica por causa da Covid-19, segundo registro do TSE, só lê e escreve. Especializado em ortopedia, o ex-deputado é considerado um profissional respeitado no meio.
Na política, começou a militar como sindicalista no Espírito Santo, durante a ditadura militar, representando a classe médica. Na década de 1970, participou da reabertura do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo. Nas origens, é um político de esquerda. Nos tempos de atuação sindical, tinha alguma proximidade com o PCdoB.
Com a redemocratização, Nilton Baiano ingressou no PMDB (atual MDB) e foi secretário estadual de Saúde no governo de Max Mauro (1987-1991), à época também peemedebista. Depois aproximou-se de Paulo Maluf e trocou o PMDB pelo atual Progressistas (PP), partido descendente do PDS* e do malufismo, adversário do PMDB nos anos 1980. Na prática, foi uma guinada ideológica da esquerda para a direita.
De 1991 a 2006, exerceu quatro mandatos de deputado federal pelo Espírito Santo (o primeiro pelo MDB e os demais pelo PP). Também foi secretário de Estado da Saúde por cerca de um ano no governo de José Ignácio Ferreira (1999-2002), entre 2001 e 2002. Em 2004, disputou, sem êxito, a eleição a prefeito de Vitória. Seu último mandato foi como deputado estadual, assumindo o cargo como suplente do PP por três períodos durante a legislatura 2011-2014.
Em setembro de 2015, trocou o PP pelo Partido Republicano (PR), atual Partido Liberal (PL), ao qual continua filiado.
Aposentado como médico, Nilton Baiano também está praticamente aposentado da política.
Por evidente, o ex-deputado nada tem a ver com a desastrosa declaração do irmão mais velho.
* Com o fim do bipartidarismo implantado pela ditadura militar, o Partido Democrático Social (PDS) foi o sucessor direto da Arena, sigla que representava o governo militar. Em 1993, mudou de nome para PPR, que virou PPB em 1995, depois Partido Progressista (PP) em 2003 e, desde 2017, apenas Progressistas.